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Geraldo Nunes

Saudades das pernas da Isaurinha

por Geraldo Nunes.

 
A cantora Isaura Garcia partiu há 10 anos, mas da notícia de seu falecimento me lembro bem porque eu estava iniciando minha atividade de apresentador de programas em estúdio de rádio e foi a primeira das notas tristes envolvendo pessoas do meio artístico que tive de ler.  Era 31 de agosto de 1993, ela estava com 70 anos.
 
Dias depois me encontro com um apaixonado cronista de São Paulo, Lourenço Diaféria, que comentou o passamento da artista. “Foi uma das mulheres mais lindas que eu já vi e me disseram que morreu só e quase esquecida”, lamentou. Lourenço era do Brás e Isaurinha também com uma particularidade a mais. A moça tinha um sotaque macarrônico que a tornava mais paulistana ainda. Dizem os antigos que mais ainda que Rita Lee, Isaura foi, em sua época, “a mais completa tradução” de Sampa, parafraseando Caetano Veloso.

Ela morava na Rua da Alegria que ainda tem esse nome e seu pai era comerciante. Isaurinha o ajudava na mercearia engarrafando óleo e cachaça para os fregueses, mas adorava cantar e cantava o dia inteiro a ponto dos vizinhos começarem a incentivá-la a ir nos programas de calouros. Um dia acabou se inscrevendo junto com a mãe e foram as duas tentar a sorte. Lá chegando, pediram à moça que passasse o tom de sua voz para a música escolhida e ela nem sabia o que era tom. Obviamente, ela e a mãe foram gongadas e na volta todos os que antes incentivavam estavam na porta aguardando para caçoar delas. Mas Isaurinha tentou outras vezes até ser contratada, entretanto no início, sem remuneração. O pai não dava dinheiro e a cantora iniciante ia a pé de sua casa até a Praça da República, onde ficava a Rádio Record, só para cantar. 
 
Um dia a mãe dela se cansou de ver aquilo e foi até a emissora, “ou vocês a contratam ou então ela não vem mais”. Decidiram contratá-la e a moça passou então a ir de bonde, todos os dias, para o trabalho.

Lourenço Diaféria, também morador do Brás, ainda era menino. Ele e seus amigos ficavam na rua todos os dias aguardando Isaurinha passar para pegar o bonde. O esforço era para poder ver de perto as belas pernas da cantora. “Imagine alguém do Brás podendo ver de perto as pernas da Isaurinha!” Confidenciou.
 
No Rio de Janeiro a Rádio Nacional promovia anualmente o concurso de Rainha do Rádio e a cada ano ganhava uma cantora diferente. Primeiro foi Marlene, depois Emilinha Borba, Dalva de Oliveira e Ângela Maria, entre outras. Concurso semelhante foi promovido em São Paulo, mas aqui o público era unânime em eleger seguidamente Isaurinha Garcia. No auge da fama, ela se apaixonou por Walter Wanderley, tecladista de muito talento que a acompanhava. Eles chegaram a viver juntos, mas por essas coisas que só o coração explica, o amor terminou para ele, mas não para Isaurinha que se pôs a chorar, chorar e chorou muito, até o fim da vida, pois para ela não havia outro nome nesse mundo.
 
Isaurinha gravou canções de sucesso, mas as que me chamaram atenção foram as que ficaram registradas em um disco depoimento lançado de um programa da Rádio Eldorado que se chamava FM Inéditos, onde artistas da MPB interpretavam canções que não faziam parte de seu repertório. Nesse disco Isaurinha canta várias músicas de Roberto Carlos de modo sentimental, inclusive uma que diz, “onde você estiver não se esqueça de mim”. Isaurinha partiu há dez anos e meu amigo Lourenço Diaféria também já se foi, mas me deixou essas histórias e o gosto de poder admirar, mesmo tendo sido após sua passagem pela vida, a voz e os encantos de Isaurinha Garcia que reconhecida, foi homenageada com a peça Isaurinha-samba jazz & bossa nova, assistida por mais de 300 mil pessoas em 2003.