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Geraldo Nunes

460 anos e várias razões para amar São Paulo

por Geraldo Nunes.

 
Para comemorar o aniversário de São Paulo não é preciso fazer festa em sua casa e nem soltar rojão. Deixe os festejos oficiais para a prefeitura, basta comemorar intimamente, de coração aberto, em silêncio, mas com pensamento positivo em favor da cidade, afinal São Paulo que tanto de ajuda merece um segundo de atenção.
 
Ainda é a maior cidade japonesa fora do Japão, a maior cidade libanesa fora do Líbano e uma das cinco maiores cidades italianas de todo o mundo. A cidade que tem por costume receber a todos de braços abertos possui as melhores escolas, hospitais e empregos  Por isso todos que aqui chegam, ainda que com o objetivo de um dia voltar à terra natal acabam ficando. 
 
O italiano Francesco Amendola, que entrevistei em um de meus programas de rádio, morou no Brás, e serve de exemplo de quem veio, ficou e se apaixonou pela cidade.  Os filhos dele que nasceram no Brasil sabem falar duas línguas, porque na escola aprenderam o português, mas dentro de casa ainda hoje só se fala italiano.
 
Bexiga

São Paulo possui um bairro que tem apelido, a Bela Vista é também conhecida como Bexiga, ou melhor, “Bixiga”, com i, por exigência de Armando Puglisi, que dizia não conhecer ninguém que pronunciasse essa palavra com “e”. “Todos pronunciam Bixiga”, insistia.  Existem várias versões para explicar este apelido. Uma delas é que no passado o lugar servia de refúgio aos portadores da varíola, uma doença contagiosa. Outra explica que havia a estalagem de um português conhecido como João Bexiga. Ele ganhou fama porque não pedia dinheiro a quem quisesse dormir em sua casa, só cobrava para tomar conta do cavalo dos viajantes. No século 20 a Bela Vista passou a receber imigrantes italianos, geralmente calabreses, que trouxeram seus costumes e suas festas como a de N. senhora Achiropita, mas o apelido permaneceu, Bexiga e isto faz do bairro uma história à parte em São Paulo.  
Hoje seu morador símbolo tenta manter as tradições do bairro. Seu nome é Walter Taverna, que todos anos faz um bolo com o tamanho em metros que corresponde à idade que São Paulo tem. Este apego ao Bexiga tem uma explicação. Ele nasceu na Rua Treze de Maio e depois, após a família ser despejada dormiu várias noites na escadaria da Praça do Orione, mas sobreviveu graças à ajuda de moradores.
 
Avenida Paulista

Não dá para falar de São Paulo sem citar Avenida Paulista, uma referência para todos nós.  A Paulista é o nosso ponto de encontro e também um lugar de lembranças sejam elas boas ou ruins. Quem nunca foi à Paulista para encontrar alguém que atire a primeira pedra. Ela ostentou casarões até os anos 70 foi a primeira a ser previamente planejada por um empreendedor chamado Joaquim Eugênio de  Lima. Hoje recebe por dia mais de um milhão e meio de pessoas daqui e de vários lugares. São 103 edifícios, sendo 87 comerciais e 13 residenciais. Desses se destacam o Conjunto Nacional que ocupa todo um quarteirão, o prédio da Fiesp, no formato de uma pirâmide e a sede do Masp - Museu de Arte de São Paulo que tem a forma de um paralelepípedo sustentado por duas pilastras separadas entre si pelo maior vão livre do mundo numa distância de 74 metros. Metade do PIB brasileiro passa pela avenida Paulista. São 52 bancos e 15 consulados, além de 15 hospitais, muitas empresas e escritórios. 
Em média 280 ônibus por hora e 90 mil carros trafegando todos os dias. Todos querem a Paulista para si ou para alguma coisa. Por isso a prefeitura estipulou que só duas vezes por ano a avenida ficará fechada aos carros para dar dá lugar às pessoas.  Durante a Parada Gay e na corrida de São Silvestre que agora acontece pela manhã e antecede à festa do réveillon. Mesmo assim, em 2013 a Paulista voltou a ser palco de manifestações a partir de junho com o Movimento Passe Livre e outros grupos terminando as passeatas muitas vezes em pancadaria. Avenida Paulista é viva, a prova é a época do natal onde ela fica toda enfeitada.
 
Praça da Sé

Para gostar de São Paulo é preciso entender a cidade e aprender com a vida. Melhor aprendizado não há do que visitar a Praça da Sé onde as contradições se escancaram entre as orações ouvidas dentro catedral e as pregações dos evangélicos do lado de fora em meio aos pedintes, aos desempregados, aos sem – teto que por lá perambulam sem ter para onde ir e às pessoas apressadas buscando suas conduções. Lá está o marco zero, um momento que de tão pequeno dá para debruçar sobre ele, serve de mesa para uma eventual refeição dos “moradores” da Sé e até para um carteado. Porém, pedimos respeito porque este monumento é o marco zero das distâncias. Isso desde os tempos dos jesuítas, ponto de partida e de chegada dos bandeirantes e o Largo da Sé dos caipiras que é hoje a Praça da Sé dos nordestinos se constitui neste século XXI no resumo de um imenso Brasil. Entendendo a Praça da Sé aprenderemos a gostar de São Paulo.
 
Parque do Ibirapuera

Você já imaginou São Paulo sem o sangue arterial rico em oxigênio de todas as manhãs?  Estou perguntando se você já pensou em São Paulo sem o Parque do Ibirapuera.  Não dá para pensar na cidade que aniversaria sem esta área verde, tão nobre, tão central,  tão necessária! O Ibirapuera nasceu da ideia de Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccilo.  Filho de uma família tradicional, das tantas que vivem em São Paulo, este mecenas que também idealizou o MAM – Museu de Arte Moderna, sugeriu que a cidade construísse um parque para comemorar seu Quarto Centenário de fundação, em 1954. Assim nasceu a proposta, levada adiante pelo projeto do arquiteto Oscar Niemeyer e pelo paisagista Burle Marx.  O Ibirapuera deve ser encarado como o melhor presente que a cidade já ganhou em seus 455 anos de existência.  Refugio para o descanso e o lazer, próximo a um lago com chafariz gigante, o parque é tão bom que dá até para entrar de carro em alguns pontos.  
 
Há quem reclame disso, mas no Ibirapuera também há prédios como o Pavilhão da Bienal que nos anos pares reúne o que há de melhor em artes plásticas e um belo teatro para shows e atrações. 
Sob a marquise dá para patinar, brincar de bicicleta e há locais destinados aos exercícios físicos e ao Cooper.  No pavilhão japonês há um lago onde carpas coloridas ornamentam o lugar em que foi montado um palácio imperial construído em Kioto.  Também há o viveiro de plantas Manequinho Lopes porque no Parque do Ibirapuera a natureza jamais é esquecida.
 
São Paulo e sua história

Voltemos no tempo 460 anos atrás para avistar uma colina e logo abaixo dela rios, peixes e tamanduás. Este foi o lugar escolhido para a construção de um colégio que deu origem a São Paulo. A primeira razão da escolha foi o clima parecido ao da Península Ibérica, depois porque ali perto passavam dois rios, o Tamanduateí e o Anhangabaú. Para compreender este ambiente não basta apenas conhecer a língua portuguesa, mas também o dialeto indígena de poucas e repetitivas palavras que definem o nome Piratininga que significa peixe seco. Os peixes eram tantos que quando as águas baixavam não conseguiam voltar, morriam e secavam às margens. 
 
Em torno do colégio de Piratininga foram surgindo as ruas que formaram uma triângulo.  Primeiro a Direita de quem vai para Santo Antonio, depois a Rua São Bento e além dessa, a Rua do Rosário que hoje é a XV de Novembro. Em torno de igrejas nascia São Paulo e suas ruas. Talvez por isso a cidade seja santificada no ato de acolher e de “fazer a vida” de tantas pessoas.  Quando a cidade começou a crescer foi preciso construir o primeiro viaduto sobre uma chácara onde se plantava Chá. Ali nascia um novo centro e vieram bairros como República, Consolação e os grandes arranha - céus, como o edifício Itália, ainda o mais alto da cidade.
 
O centro se expandiu a outras regiões e o que existe lá se esvaziou, mas assim é São Paulo que cresceu nos Jardins, no Itaim, Pinheiros, no Morumbi e se esparramou por uma imensa periferia. A cidade cresceu porque só havia essa ordem: crescer. Deste crescimento surgiu a São Paulo que hoje conhecemos com tantos problemas e o seu trânsito caótico.  Mas para tudo há soluções e como aqui a filosofia é trabalho, os moradores seguem essa trilha chamada progresso. Aonde chegará esse gigante? O tempo dirá. Viva São Paulo.