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Geraldo Nunes

Samba-enredo, do apogeu à queda

por Geraldo Nunes.

Que o carnaval já foi muito mais animado, isso não se discute, mas até o que restava de interessante nos dias do reinado de Momo, os desfiles das escolas de samba do Rio e de São Paulo, vem se mostrando há algum tempo repetitivos e cansativos.
 
 
 
Não se canta mais no carnaval, apesar dos sambas de enredo mudarem a cada ano. Mas não há um que fique na lembrança, após a quarta-feira de cinzas. No passado foram feitos sambas-enredo que entraram para a história, é o caso de “Aquarela Brasileira”, composição de Silas de Oliveira, para a Império Serrano no carnaval de 1964. De tão belo continuou sendo cantado levando Martinho da Vila a gravá-lo em 1974, eternizando essa verdadeira página do carnaval brasileiro. A própria Império Serrano decidiu de novo apresentá-lo na Marquês de Sapucaí em 2004, tamanha a tradição. Sua letra diz: “Vejam esta maravilha de cenário, é um episódio relicário que o artista num sonho genial, escolheu pra este carnaval”... 

Este é só um exemplo de sambas-enredo até hoje cantados e lembrados, existem outros tanto no Rio como em São Paulo, o problema é que de uns tempos para cá, não temais surgido um samba marcante.
 
Levei essa questão aos entendidos em música e carnaval e eles concordaram. Desse jeito, a atual geração de sambistas não deixará um legado para as novas gerações. O jornalista Maurício Coutinho, especialista em carnaval, entende que como a quantidade de exigências para escola fazer um bom desfile aumentou, o carnavalesco acaba interferindo na elaboração da música para o congraçamento do samba com as alegorias. “Isso acaba tirando a inspiração dos compositores”, diz Maurício. Outro entendido, o repórter Gilberto Rodrigues que cobre há mais de dez anos os desfiles em São Paulo, aponta outro motivo. “Como os desfiles estão cada vez mais caros, as escolas correm durante o ano em busca de patrocinadores como organismos internacionais e empresas estrangeiras”, explica citando o exemplo da escola paulistana Unidos de Vila Maria que no ano passado precisou falar da Coreia do Sul. “Os compositores da escola não conseguiram criar uma letra agradável para o tema e o samba ficou cansativo”, lembra o repórter informando 
que o resultado foi o descenso da escola. 
 
O musicólogo Ricardo Cravo Albin, do Rio Janeiro, é outro que vê com preocupação a situação dos sambas-enredo. “Antes – diz ele - havia um ou dois compositores no máximo em cada samba e hoje há até seis pessoas participando da composição, ou seja, “cada um faz uma parte e isso obviamente não vai resultar em uma boa música”, lamenta o especialista, temendo não a decadência dos desfiles, mas o desinteresse da população pelo que acontece no sambódromo. “No Rio de Janeiro, a procura pelo samba de rua e pelas bandas carnavalescas vem aumentando a cada ano, a ponto da prefeitura ter adotado um esquema de infra-estrutura para manter a cidade limpa após os eventos”, ressalta Cravo Albin, assinalando que o sambódromo e os desfiles da Sapucaí, assim como em São Paulo, já atraem mais turistas que moradores da cidade, além das pessoas ligadas ao samba. 
 
Maurício Coutinho que é paulistano concorda com o musicólogo carioca e acrescenta que só quando começar a diminuir o público nas arquibancadas é que os organizadores do carnaval pensarão em fórmulas para voltar a valorizar o samba-enredo. “Estou tomando por base o resultado positivo das bandas pré – carnavalescas que estão crescendo em interesse do público a cada ano”, ressalta Maurício apontando que no último fim de semana 43 blocos desfilaram na Avenida Sumaré atraindo cerca de 50 mil pessoas da classe média. 
Esses foliões certamente deixarão São Paulo durante o carnaval viajando em busca das praias e do lazer, coisa comum por aqui nessa época do ano. Ao mesmo tempo o samba seguirá seu destino confinado a um canto da Marginal do Tietê onde se localiza o sambódromo do Anhembi.
 
Um pouco da história do samba
 
 
O samba é brasileiro e se formatou na Bahia, nas senzalas do século XIX, da mistura dos ritmos africanos trazidos pelos escravos vindos de várias partes daquele continente ao longo dos anos. Mas foi no Rio de Janeiro que o samba criou raízes e se desenvolveu, mesmo perseguido, a ponto de até o final da década de 1920, quem fosse pego dançando ou cantando samba corria um grande risco de ir batucar atrás das grades, o samba era malvisto pela sociedade. 
 
Nesse aspecto Noel Rosa merece ser citado. Ele foi um dos primeiros brancos a compor sambas e quem sabe até por suas canções o ritmo passou a ser aceito. Ele cantava, “ninguém aprende samba no colégio” e assim surgiram as escolas especializadas no ritmo que passaram a desfilar nas ruas do Rio de Janeiro, a partir da metade dos anos 30 interpretando no carnaval aquilo que já se cantava, não havia o samba de enredo.
 
Foi então que surgiram as escolas de samba levando para a avenida e depois aos sambódromos um tema diferente a cada ano. Esses temas surgiam da inspiração dos compositores e assim nasceu o samba de enredo. À medida que a qualidade dos desfiles evoluiu, a quantidade de exigências aumentou.
 
As escolas criaram uma linha de compositores e intérpretes para tocar e cantar em cada ano um samba diferente. Surgiram também os organizadores do desfile que fazem o congraçamento das fantasias e alegorias com o que está sendo cantado, é o carnavalesco. Hoje em dia é o carnavalesco que estipula o que deve ser dito no samba enredo atrapalhando a inspiração do compositor.Alguns especialistas sugerem mudanças senão os sambas de enredo poderão entrar em decadência como aconteceu com as marchinhas.
 
Lembre a letra do samba Aquarela Brasileira, de Silas de Oliveira
 
Vejam esta maravilha de cenário
É um episódio relicário
Que o artista num sonho genial
Escolheu pra este carnaval
E o asfalto como passarela
Será a tela do Brasil em forma de aquarela
Passeando pelas cercanias do Amazonas
Conheci vastos seringais
No Pará a ilha de Marajó
E a velha cabana do Timbó.
Caminhando ainda um pouco mais
Deparei com lindos coqueirais
Estava no Ceará,terra de Irapuã
De Iracema e Tupa.
Fiquei radiante de alegria
Quando cheguei na Bahia
Bahia de Castro Alves,do acarajé
Das noites de magia do cadomblé
Depois de atravessar as matas do Ipu
Assisti em Pernambuco
A festa do frevo e do maracatu.
Brasília tem o seu destaque
Na arte, na Beleza e arquitetura
Feitiço de garoa pela serra
São Paulo engrandece a nossa terra
Do leste por todo centro-oeste
Tudo é belo e tem lindo matiz
O Rio do samba e das batucadas
dos malandros e mulatas
de requebros febris
Brasil, essas nossas verdes matas
cachoeiras e cascatas
de colorido sutil
e este lindo céu azul de anil
emolduram aquarela o meu Brasil
 
Lá rá rá rá rá
Lá rá rá rá rá