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Geraldo Nunes

Arnesto lembrava com gratidão do amigo Adoniran Barbosa

por Geraldo Nunes.

 
Ao receber a notícia do falecimento de Ernesto Paulelli na semana que antecedeu o carnaval busquei no arquivo a entrevista que fiz com ele para a Rádio Eldorado e transcrevi no formato de reportagem aquilo que me foi contado em março de 2005. Ele confirma que morou no Brás, mas o restante do enredo foi inventado pelo compositor Adoniran Barbosa. Ele não deixou os amigos esperando na porta de sua casa. Penso inclusive que ele preferia não ter morrido tão perto do carnaval. Por ele, aguardaria pelos mais uns dias até a festa passar. Mas como diria Adoniran: “Pacência”. Segue a transcrição.
 
O Samba do Arnesto conta a história de um anfitrião que convida os amigos para ir à sua casa, mas quando chegam dão com a cara na porta e nem há um bilhete dando recado se voltaria logo, ou não. Pura falta de educação em um tempo onde quase ninguém tinha telefone em casa.   Entretanto, Ernesto Paulelli dizia que nunca deu cano em ninguém e que tudo não passou de uma ficção imaginada pelo amigo dele, Adoniran Barbosa, que um dia prometeu fazer uma música em sua homenagem. Essa canção foi o “Samba do Arnesto”  que fez de Paulelli um personagem real do samba paulista e da cidade. Semana passada Ernesto Paulelli se foi, aos 99 anos.  “O Adoniran me chamava de Arnesto porque dizia que ficava mais sonoro e engraçado, ele me rebatizou sabia? Hoje quase todos me chamam assim, de Arnesto e nem ligo mais, agora me sinto orgulhoso porque ele fez uma música para mim”. Logo em seguida ele reclama dizendo que o compositor arrumou uma “treta” para ele, “porque acham que eu fui mesmo um ‘tratante’, um ‘furão’ e não recebi os amigos em casa, mas eu garanto isso nunca aconteceu”, explicou Arnesto, digo, Ernesto Paulelli na entrevista à Rádio Eldorado.
 
Seu nascimento se deu no Brás, em 1914 e morou bairro por muitos anos, depois ja adulto se mudou para a vizinha Mooca. Foi engraxate na infância e depois na adolescência aprendeu tocar violão com os boêmios que circulavam por lá. Passou a acompanhar artistas no rádio entre os quais uma cantora conhecida por Nhá Zéfa que se apresentava aos domingos à tarde em uma emissora concorrente da Record, então a mais ouvida da cidade. Um dia Nhá Zéfa foi convidada para se apresentar na Record e pediu para Ernesto acompanhá-la. Foi então que ele e Adoniran se conheceram e ficaram amigos. Um dia Adoniran lhe pede um cartão de visitas e ao receber pronuncia, “Arnesto” sendo corrigido pelo companheiro. “Meu nome correto é Ernesto”, explicou, mas o artista insistiu em pronunciar errado. Indagado por que fazia aquilo, Adoniran disse que pronunciar Arnesto, era mais fácil e que ficasse tranquilo, porque não sairia por aí falando o nome dele errado, mas que ainda faria um samba para com este nome.
 
Depois dessa conversa quinze anos se passam. Paulelli torna-se advogado pelas Faculdades Integradas de Guarulhos, obtendo registro na OAB sob no. 40532. Certo dia, com o rádio ligado em casa, ouve pela primeira vez o Samba do Arnesto, cantado pelos Demônios da Garoa e se emociona. “Eu me lembrei da promessa que ele fez”, da música que faria para mim. Naquele dia resolve nem ir trabalhar e se dirige à Rádio Record para encontrar o amigo Adoniran e cumprimentá-lo.  Logo que chega o encontra e se abraçam e o compositor se referindo ao samba, o chama de compadre e diz: “Você batizou uma de minhas filhas”, porque Adoniran considerava que suas músicas eram como se fossem verdadeiras filhas dele.  Quanto ao parceiro na composição, Alocin, Ernesto conta que também o conheceu. “O nome dele é Nicola, mas escrito de maneira invertida, porque o Adoniran tinha esse costume de modificar as nomenclaturas, fez até com ele mesmo, seu nome verdadeiro era João Rubinato”.
 
Ao longo da vida, Ernesto e Adoniran continuaram amigos, mas nunca foram próximos. Voltaram a se rever em 1979 na extinta TV Tupi em um programa que se chamava “Almoço com as Estrelas”, onde os dois foram entrevistados pelos apresentadores Ayrton e Lolita Rodrigues. “Naquela oportunidade a história do ‘Samba do Arnesto’, foi contada pela primeira vez em público e depois daquele dia, só fui ver o Adoniran no velório dele”, contou para arrematar que aquele dia também foi inusitado: “as pessoas ficavam lembrando as piadas que ele contava e riam quase na frente do defunto enquanto a Matilde, esposa dele chorava”, explicou afirmando que até ele ficou constrangido quando foram lhe pedir autógrafos.  
 
Quem comunicou o falecimento de Ernesto Paulelli, foi sua filha Valéria, de 67 anos, que sonhava em ver o pai chegar ao centenário. Faltou pouco, ele faria aniversário em dezembro.
 
Samba do Arnesto (Adoniran Barbosa e Alocin)

O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás
Nós fumos não encontremos ninguém
Nós “vortemos” com uma baita de uma “réiva”
Da outra vez nós “num” vai mais
Nós não “semos” tatu!
(Bis)
No outro dia “encontremo” com o Arnesto
Que pediu desculpas mais nós não “aceitemos”
Isso não se faz, Arnesto, nós não se importa
Mas bem que você devia ter “ponhado” um recado na porta…
… Um recado assim ói: “Ói, turma, num deu pra esperá
Aduvido que isso, num faz mar, num tem importância,
Assinado em cruz porque não sei escrever”.