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Geraldo Nunes

Manifestações pelo país resgatam a música de protesto

por Geraldo Nunes.


 
A Marselhesa, marcha cantada pelos manifestantes durante a Revolução Francesa de 1789, era música de protesto e com muito orgulho é hoje o Hino da França 

A música de protesto voltou a ecoar pelas cidades brasileiras e certamente ficará na lembrança dos jovens que hoje saem às ruas. Algumas melodias, entretanto, já fazem parte do cancioneiro como as que foram interpretadas pelo Legião Urbana, como “Que país é esse” e outras ainda que nada tenha a ver com protesto, mas que servem ao momento como as de Ivete Sangalo “Agora é Nós”. Música é assim, fica encarnada na alma do povo podendo a ser cantada de acordo com as situações.

Mais que a crônica e a poesia, a música nos dias atuais é uma forma de expressar sentimentos, desejos, frustrações, conceito que não está muito longe da realidade. Durante boa parte do século XX a música serviu de alerta para abrir os olhos da humanidade sobre questões que afligiam o mundo como a guerra, a discriminação, a opressão e assim por diante. 
 
A música de protesto também é a rebeldia sem causa do rock’ n roll dos anos 50 e ganhou referência ideológica na década de 1960 com os Beatles e os Rolling Stones, na Inglaterra e Bob Dylan, nos Estados Unidos que através da canção Blowing In The Wing, hoje exaustivamente cantada até pelo senador Eduardo Suplicy, inspirou o movimento hippie por propor o desapego dos bens materiais.

Em 1964 no Brasil a repressão e a censura instauradas pelo regime militar deram origem a movimentos que viam na música uma forma de criticar o governo e de chamar a população para lutar contra a ditadura. Os grandes nomes desse período foram Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque e Geraldo Vandré, entre outros. Usando como letra metáforas e ambiguidades, para burlar a censura, Caetano Veloso dizia “É Proibido Proibir”.  Geraldo Vandré compôs “Para Não Dizer que não Falei das Flores” confrontando o exército ao dizer sobre os soldados: “... nos quartéis lhes ensinam antigas lições, de viver pela Pátria e morrer sem razão...” e o compositor, por causa disso, foi perseguido e de lá para cá nunca mais foi mesmo.

Chico Buarque de Hollanda, porém, foi o maior dos contestadores do regime militar. Gravou Pedro Pedreiro e Construção ficando visado, indo depois morar uns tempos na Itália. Voltou mas continuou tendo problemas com a censura. A música Cálice, vetada integramente em 1974 no governo de Ernesto Geisel, só pôde ser gravada após a abertura política. Cansado dos vetos federais, o compositor chegou a usar um nome falso, Julinho de Adelaide, para driblar os censores. Chico havia criado versos para a filha do então presidente. Perguntada em uma entrevista sobre quem era seu cantor preferido, a moça respondeu Chico Buarque e quando Chico soube justamente ele, o mais censurado no governo Geisel, ironizou e fez os seguintes versos: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. É incrível, mas com o argumento de que se tratava de uma briga entre sogro e genro, a censura liberou a canção cujo nome é Jorge Maravilha, único rock gravado por Chico Buarque.
 
Por toda a América Latina foram muitas as canções de protesto, com Mercedes Sosa na Argentina e Vitor Jara, no Chile, durante os anos 70, por exemplo, e tantos outros. Foram melodias de sucesso na época e até hoje são e com o término do regime militar, a rebeldia ficou a cargo das bandas de rock dos anos 80 que passaram a questionar a sociedade brasileira e as diferenças sociais em um país onde a classe média finge ser rica enquanto outros tantos vivem na miséria, como na canção “Miséria” dos Titãs.

Houve, porém, a partir da estabilização da moeda, uma acomodação, tanto dos contestadores quanto da classe e da militância política, mas de repente, os protestos voltaram às ruas e as recentes manifestações pelo país reacenderam a chama. Tom Zé já está cantando em seu novo CD, “... a minha dor está na rua, calar a boca nunca mais...”
 
Outro artista não tão politicamente correto, o cantor Latino também lançou nova música onde diz, “... amarra que é tudo nosso, afinal filho teu não foge à luta...” O Capital Inicial foi mais além e está pregando, “... viva a Revolução...” Os rappers, contudo, dizem que a música de protesto nunca desapareceu, ela só saiu da esfera do rock e da MPB. O Rap, dizem eles, sempre protestou contra as desigualdades.
 
Além de grupos como os Racionais MC, o Rappa aproveitou a onda de manifestações, durante a Copa das Confederações, para cantar o seguinte refrão: “... vem pra rua porque a rua é a maior arquibancada do Brasil...”, antecipando que se necessário este refrão será ouvido também durante a Copa do Mundo, aqui no Brasil, no ano que vem. 

 

Abelardo Barbosa, o Chacrinha ainda deixa saudade

por Geraldo Nunes.

 
Quem não se comunica se trumbica, dizia o apresentador que implantou a baixaria na televisão brasileira
 
Em 30 de junho de 1988, morria Abelardo Barbosa de Medeiros, o Chacrinha , em 30 de junho de 1988 aos 70 anos. Naquele dia milhares de pessoas foram ao velório para ver o “Velho Guerreiro” no caixão segurando entre as mãos um boné de marinheiro que ele costumava usar em seu programam de TV e no peito a faixa do bicampeonato do Vasco, time pelo qual torcia. Ao lado dele também a buzina que usava impiedosamente para reprovar os calouros.
 
Abelardo nasceu no agreste pernambucano em uma família bem posicionada socialmente, tanto que cursou medicina. Certa vez passou mal e acabou sendo salvo pelos colegas. Ele teve uma apendicite supurada e passou por uma cirurgia de emergência feita pelos seus colegas de curso. Nasceu de novo e ainda convalescente, foi trabalhar de percussionista para o conjunto "Bando Acadêmico" que viajou à Europa para apresentações.
 
Na volta, desembarcou no Rio de Janeiro determinado a tentar a sorte como speaker de rádio. Trabalhou em várias delas como locutor, sem muito sucesso. Em 1942, estreou na Rádio Clube de Niterói o programa "Rei Momo da Chacrinha". É que a emissora ficava numa chácara em Niterói, daí o nome do programa, do qual ele era o apresentador. Depois do carnaval daquele ano, o programa passou a se chamar "Cassino da Chacrinha". Ele abria o estúdio da rádio para os visitantes e pelos microfones dava a impressão que todos estavam mesmo dentro de um lugar apertado com várias pessoas falando ao mesmo tempo. Imitando o Cassino da Urca, onde cantores se apresentavam, Chacrinha fazia o mesmo em seu apertado estúdio, com artistas que queriam ganhar projeção e se manteve no rádio até 1955. 
 
No ano seguinte, ainda como Abelardo Barbosa fez sua estreia na televisão, apresentando o "Rancho Alegre", da TV Tupi do Rio de Janeiro e dali surgiu a ideia para que levasse à TV aquilo que já fazia no rádio e deram a ele um auditório apertado para encher de gente e chamar artistas. Como nos cassinos do passado, ele também decidiu exibir vedetes e assim se implantou o primeiro programa apelativo da TV que teve audiência massacrante. Começava a programação de baixo nível na TV brasileira, mal que em troca oferece grande audiência, infelizmente.
 
Trabalhou depois nas TVs Excelsior, Globo, Tupi de São Paulo e TV Bandeirantes. “Vocês querem bacalhau?” Essa mania de jogar bacalhau  para o público veio nos tempos da Tupi  quando a procura pelo produto nos supermercados caiu muito e para incentivar as vendas foi feita uma promoção no programa. A plateia disputava a tapa cada peixe atirado, as vendas explodiram e ele explicava: “Brasileiro adora ganhar um presentinho.”
 
Foi Gilberto Gil quem o apelidou de “Velho Guerreiro” em uma canção que na verdade ironizava o general Costa e Silva, chamada “Alô Brasil, Aquele Abraço”. 

“Chacrinha, continua balançando a pança” era para provocar Costa e Silva, mas o original adorou e assumiu para ele passou a buzinar a moça, a massa e os pobres calouros de quem nunca teve pena. Também entre esses houve os que depois fizeram sucesso, como Agnaldo Timóteo. Já Waldick Soriano, Sidney Magal e Gretchen vieram das gravadoras exclusivamente para cantar no Chacrinha e ganhar dinheiro naquilo que no passado se chamava de “jabaculê”.  Houve então críticas ácidas aos seus programas, vindas especialmente do meio intelectual e universitário. “Aquela baixaria toda ajuda a fortalecer a ditadura”, diziam os setores mais esclarecidos. Nem ele e nem as emissoras ligavam para isso. Explorador da sensualidade passou a colocar na TV, bailarinas em trajes cada vez mais insinuantes e deu popularidade a elas, várias se tornaram conhecidas. A mais famosa foi Rita Cadillac, que depois virou cantora se apresentando em presídios e ainda Sandra Matera, que posava de modelo e a Índia Potira, que acionou na justiça o 
cineasta Nelson Hoiffen, autor do filme Alô, Alô Terezinha, de 2011, por direito de imagem e ainda; Fátima Boa Viagem, Gracinha Copacabana e Dalva, a Garça Dourada, entre outras. Essa última comandava o passo da dança para as demais. 

Perto do carnaval sempre surgia uma marchinha como Maria Sapatão, de 1980, fazendo trocadilho com a homossexualidade feminina. A Aids estava surgindo e apavorando as pessoas e o velho guerreiro resolveu fazer uma marchinha a favor do uso de preservativo “... Bota camisinha nele...” O programa tinha um quadro de jurados destinado a dar notas aos calouros. 

Pessoas da televisão como Elke Maravilha, Clodovil, Araci de Almeida e Pedro de Lara, entre outros, eram tratados como personalidades do meio artístico. Para o pior calouro havia o troféu abacaxi, tudo na maior gozação, mas havia também o cantor mascarado que interpretava uma canção com o rosto coberto. Quando alguém descobrisse seu nome, ele então se revelava. Fábio Jr. chegou a ser cantor mascarado e Roberto Carlos conta que no início de carreira também foi. Em sua fase final, de volta à Rede Globo no início dos anos 80, Chacrinha deixou de ser mal visto e passou a ser do gênero “kilt” recebendo as bandas que se projetavam no universo do rock brasileiro, entre as quais Blitz, Kid Abelha, Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor e Titãs. Hoje todos esses se orgulham de terem cantado no Chacrinha.

Muita gente ao longo dos anos tentou imitá-lo: Bolinha, Paulo Silvino e Agildo Ribeiro o substituíam nas férias, mas igual ao Chacrinha só ele mesmo. Ela era malicioso, mal educado, sem vergonha e baixo nível mesmo, mas com um poder de comunicação incrível, coisa que nem os entendidos conseguem explicar. Por isso tornou-se um ícone das comunicações.

“Verás que um filho teu não foge à luta”

por Geraldo Nunes.

Protestos ecoam o 9 de julho de 1932
 
 
Diante da situação atual fica mais fácil compreender os motivos que levaram o povo às ruas no movimento MMDC
 
Protestos contra o governo ganharam a cidade de São Paulo em 1932 quando a população não chegava a um milhão de habitantes e quase ninguém se recusou a lutar. Entre os homens foram 55 mil a se inscrever como voluntários nas frentes de batalha e boa parte nunca havia pego em armas e mal sabia atirar. 
Nunca se viu mobilização igual na história do povo brasileiro e qual o motivo para tudo isso. Getúlio Vargas, líder da revolução de 1930 afastou do poder as lideranças do país dentro daquilo que se chamava de “política do café com leite”, onde Minas e São Paulo se revezavam no poder. “A crise de 1929 quebrou os cafeicultores e muitos fazendeiros não tiveram dinheiro para pagar seus colonos e houve fome no campo”, explica Luis Eduardo Pesce Arruda, coronel da reserva da Polícia Militar e profundo estudioso da revolução constitucionalista. Ele entende que Getúlio surgiu como esperança do povo por melhores dias tendo recebido até dos setores mais progressistas que já defendiam uma nova constituição, relativo apoio no início de seu mandato. “Sonhava-se já com os direitos a valores democráticos como voto secreto e voto feminino e tudo isso foi prometido, tanto que antes de seguir para o Rio de Janeiro ele desfilou em carro aberto por São Paulo sendo até aplaudido”, analisa o coronel ressalvando que a atitude, no entanto, soou como provocação nos meios conservadores, especialmente porque os depostos; Washington Luiz e Júlio Prestes; que nem assumiu a presidência, eram políticos daqui. “Mas Getúlio não cumpriu sua promessa e passou a governar através de decretos, dando motivos ao povo para protestar.
 
 
Manifestações populares começaram a acontecer e o meio estudantil foi às ruas reivindicando a constituição prometida e quatro estudantes acabaram mortos por tropas federais durante uma concentração na Praça da República.
A comoção pela morte dos quatro jovens criou o movimento cuja sigla é o MMDC lembrando as iniciais dos nomes Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo. Pelo acontecimento setores conservadores também abraçaram a causa financiando o movimento que poderia tirar Getúlio Vargas do poder visto que este agia como um ditador. O povo que já havia abraçado a causa seguiu adiante.
 
As mulheres residentes em São Paulo, mais de 100 mil, se ofereceram às organizações de apoio como, por exemplo, no auxílio às famílias dos voluntários. Muitas ajudaram na confecção de agasalhos e nos trabalhos de enfermagem. O livro Breve História da Revolução Constitucionalista, de Hernâni Donato, conta que 6.800 senhoras e moças da capital costuraram 440 mil fardas. Todas trabalharam de graça, revezando-se em turnos diurnos e noturnos à frente de 800 máquinas de costura. 
  
Nas frentes de batalha, porém, aconteceram erros. O general Euclides Figueiredo seguiu com um pelotão de paulistas até a divisa com o Rio de Janeiro e lá ficou parado aguardando tropas de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul que não vieram. “Ele deveria ter seguido ao Rio de Janeiro ou retornado, mas ficou parado servindo de presa fácil ao inimigo”, analisa Antonio Penteado Mendonça, atual presidente da Academia Paulista de Letras e grande estudioso do assunto, apontando que outros erros aconteceram ainda levando São Paulo à derrota nas armas.
 
Em 3 de outubro de 1932, um segunda – feira, o Estado de S. Paulo publicava em primeira página os termos do armistício que punha fim à guerrilha do povo paulista com um saldo em torno de mil mortos. Ao lado, também na primeira página, o governador Pedro de Toledo, que abdicara do cargo de interventor em nome do povo publicava uma nota esclarecimento à população onde em outras palavras explicava que tudo o que e se pôde fazer foi feito, “até uma moeda paulista foi emitida quando os recursos federais foram cortados”, explicou.
De fato, uma campanha com valores em ouro foi feita para fazer valer o novo dinheiro: “Ouro para o bem de São Paulo”, se chamou o movimento. Após a revolução, o que sobrou desse montante arrecadado se aplicou na construção de um prédio, no centro, cujo formato lembra a bandeira paulista. Vale lembrar que a melhor definição para o movimento constitucionalista de 1932, continua sendo a do poeta Paulo Bomfim. “A trincheira de 32 foi a pia batismal da democracia em nossa terra”. 

Milton Nascimento se propõe a fazer novas canções de protesto

por Geraldo Nunes.

 
Aquele cantor comportado e até tímido que conhecemos rompeu com seu jeitão introspectivo ao visitar nessa semana à Rádio Estadão e colocou-se a falar de planos e fez até proposta de trabalho. Nada melhor para um programa entrevistas voltado aos que apreciam as coisas da noite. Um entrevistando falante, vale por dez reportagens. 
Milton recorreu à sua memória privilegiada para falar dos protestos que andam acontecendo no país. Para ele, parece mesmo que o Brasil acordou e lamenta a presença dos baderneiros que se aproveitam no meio de tanta gente boa e bonita querendo atrapalhar, “mas não vão conseguir”, assegura o artista que compôs músicas de protesto ao regime militar. “Eu tenho acompanhado tudo, as coisas que a Dilma propôs na campanha dela são fantásticas, mas por algum motivo não saíram do papel e agora se cobra aquilo que não foi adiante.” 
Como compositor ele entende que a classe artística precisa se pronunciar e se fazer presente em momentos como este. “Eu já passei por muitas coisas, pela fase da censura, depois veio à abertura e enfim o  movimento das  diretas já, mas isso não quer dizer nada, estou aqui de novo e toda vez que precisarem de mim, estou à disposição”. 
Enfim, Milton quer cantar as novas mudanças que o  Brasil pede e já busca inspiração para isso conversando com pessoas e lendo tudo a respeito.

O músico se apresentou nos dias 27 e 28 de junho em São Paulo com o show  “Uma Travessia” onde cantou algumas das canções que fez em parceria com o “Clube da Esquina”, um grupo de amigos da cidade de Três Pontas – MG, dos quais se destacam outros nomes da MPB como Lô Borges e Beto Guedes. Perguntado na entrevista concedida ao apresentador Emanuel Bonfim, da Rádio Estadão, sobre a música que lhe deu mais trabalho para ser feita, ele diz ter sido Saudade dos Aviões da Panair
 
 
e que por causa dela acabou compondo no mesmo dia uma outra. “Foi assim: eu acordei às 9 da manhã e fui direto pra sala num apartamento que não tinha nada, em Copacabana. Só tinha fogão, geladeira, um negócio para eu dormir no quarto, além do piano. Eu fiquei ali o dia inteiro só com o eco. Eu adoro o eco, sou fã. Insisti nesta música até umas seis da tarde. Quando estava cansado, decidi ir pro quarto e olhar para o teto. No caminho, no momento que ia entrar nele, eu olhei para trás e vi o piano. Aí fiz de imediato outra música, que é Ponta de Areia.  

Eu não estava pensando em fazê-la, mas eu estava com tanta coisa na cabeça por conta daquela primeira que acabaram saindo as duas”.
 
A entrevista finalizou com Milton dizendo que o importante é que continua disposto, com saúde controlada e a fim de trabalhar e para dar exemplos do que também quer fazer, fez uso de novo de suas memórias. “Eu gostaria de voltar a ser ator, sempre gostei de teatro e quando morei em São Paulo trabalhei com o Plínio Marcos numa peça, gostei muito e ainda participei do filme do Werner Herzog, cujo nome é Fitzcarraldo”. Foi uma das coisas mais maravilhosas que aconteceram na minha vida. Sempre digo: “Tem um ator aqui esperando o convite de um diretor!”

Vem quente que eu estou fervendo

por Geraldo Nunes.

 
O cantor e compositor Eduardo Araújo, com mais de 50 anos de carreira, prepara um livro o que ele tem chamado de "a verdadeira história do rock and roll no Brasil". Ele garante ter se tornado roqueiro muito antes dos acordes do iê, iê, iê e da Jovem Guarda, movimento do qual ele diz não ter feito parte porque não participava dos programas apresentados por Roberto Carlos
 
A autobiografia de Dudú, como a falecida esposa e também cantora Silvinha Araújo o chamava, está sendo redigida pelo jornalista Okky de Souza. Eduardo diz que o nome provisório da obra é “Pelos Caminhos do Rock”, igual à de um disco seu, de 1975, onde dará sua versão a respeito da história do rock nacional citando entre outros, Wilson Simonal, Tim Maia, Carlos Imperial, Erasmo e ele, Roberto Carlos. 
 
Eduardo Araújo diz temer por uma reação judicial daquele que ele considera seu amigo “O Roberto tem feito isso com todos que falam dele em alguma obra, mas acredito que comigo será diferente e que não vá me processar e impedir que o livro circule, mesmo porque eu só falo coisas boas dele”. Conta, porém que ninguém queria gravar Roberto no começo. “Eu mesmo levei muitos ‘nãos’ com ele quando íamos às gravadoras pedir que lançassem nossos discos”, explica o compositor lembrando que também sabe ainda outras coisas do amigo sem, no entanto, ameaçar de levá-las a público caso haja alguma ameaça judicial. Tal posicionamento lembraria outro sucesso do artista em parceria com Carlos Imperial. “Se você quer brigar e acha que com isso eu estou sofrendo, se enganou meu bem”... conforme trecho de “Vem Quente que Eu Estou Fervendo”. 

Eduardo Araújo emplacou seus sucessos pouco depois do encerramento do programa Jovem Guarda na TV Record, em 1968. Na mesma época teve ele um programa próprio na concorrente TV Excelsior, daí o fato de considerar o programa de Roberto Carlos apenas um capítulo na história do rock no Brasil, sem ter formado um gênero musical. “Não existe o gênero Jovem Guarda existiram sim pessoas que se aproveitaram da situação, em especial as gravadoras, para colocar cantores ainda pouco preparados no mercado, fazendo disso um gênero paralelo chamado por alguns críticos de brega, afirma Eduardo. 
 
Bem próximo de Carlos Imperial foi parceiro também dele em “O Bom”, composição ouvida até hoje onde diz: “Meu carro é vermelho, não uso espelho prá me pentear...”, fazendo o estereótipo do playboy meio hippie do final dos anos 60. Na mesma canção ele também cita a moda da época; “... botinha sem meia”..., “cabelo na testa, sou o dono da festa, pertenço aos dez mais...” Eduardo prepara, além do livro, um novo CD e DVD e promete retornar aos palcos com novo show, onde pretende entre uma canção quebrar alguns mitos ligados à Jovem Guarda. O livro ainda não tem previsão de lançamento, mas Eduardo Araújo acredita que sairá ainda este ano. “Estamos ainda na fase de redação e não posso falar mais para não estragar as surpresas que trará.” Sendo assim, pode vir quente.