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Geraldo Nunes

Os Paralamas do Sucesso completam 30 anos de estrada

por Geraldo Nunes.

 
Motivos para comemorar existem, afinal foi o único grupo brasileiro que uniu o rock ao sentimento de latinidade, ousando misturar suas músicas aos ritmos da salsa, do mambo, do merengue ou da rumba como em “Alagados”. 

Os Paralamas poderiam ser chamados de “a banda do Mercosul”, porque é o conjunto que melhor transita no circuito Argentina, Chile e Uruguai sempre para auditórios lotados. No Brasil a miscigenação musical se deu entre o rock e o tropicalismo africano de Gilberto Gil os levando a canções do tipo “A Novidade”.

Tudo começa em 1983 quando Herbert Vianna e Bi Ribeiro se conhecem. Herbert convence Bi a comprar um contrabaixo e os dois passam a ensaiar na casa de sua avó, dona Ondina. Depois, conhecem Vital, o primeiro baterista que acabou faltando em um show e foi substituído por João Barone que ganhou a posição e não saiu mais do time. Começa assim a vida dos Paralamas que nós conhecemos e na batalha por espaço o grupo acaba tendo a chance de tocar em uma estação de Rádio no Rio de Janeiro e na saída do programa recebem convite para lançar o primeiro disco, que se chamou Cinema Mudo e a música de destaque foi “Vital e sua moto”, apresentada em um programa da TV Cultura chamado Fábrica do Som, sucesso nos anos 1980.

O álbum seguinte leva o nome Passo do Lui e a música que ganha fama é “Óculos”, até então um companheiro inseparável de Herbert, como pode ser visto numa edição do programa Globo de Ouro, de 1984 .

O marco na carreira dos Paralamas ocorre em 1985 com o lançamento do álbum Selvagem e a fusão definitiva com os ritmos latino e africano, mas que recebe duras críticas dos especialistas e mesmo assim vende quase 700 mil cópias qualificando a banda por sua ousadia, atitude e personalidade. 
Em 3 de fevereiro de 2001, entretanto,  acontece uma tragédia, Herbert Vianna pilotando um ultraleve se acidenta em Angra dos Reis matando sua esposa Lucy Needhan. Ele sofreu ferimentos graves e ficou paraplégico. Foram meses de coma e recuperação até que ele se reintegrasse à banda e hoje cadeirante Herbert e seus companheiros continuam a se apresentar. O que se deu de lá para cá foi uma transformação de comportamento deles e do público. Herbert se diz mais seguro no contato com os fãs e recebe deles uma afeição maior do que antes do acidente. A criatividade musical, entretanto diminuiu e o Paralamas de show em show reprisa somente aquilo que já criou o que não chega a ser ruim, porque demonstra a união nos bons ou nos maus momentos da vida.

Periscinoto ajudou fazer a história da publicidade no Brasil

por Geraldo Nunes.

Fundador de agências como Almap-BBDO, começou desenhando eletrodomésticos e desenvolvendo os anúncios da Sears e do Mappin
 
 
Em 8 de abril o publicitário Alex Periscinoto comemorou seus 88 anos e para nossa sorte vamos homenageá-lo em vida com esse artigo cujas informações foram extraídas em maior parte, de uma entrevista que ele nos concedeu em 28 de abril de 2007 para o programa São Paulo de Todos os Tempos da Rádio Eldorado e tenham certeza foi um dos melhores depoimentos que já obtive.   Alex naquele dia mais parecia um menino e cheio de vitalidade, dos percalços na escola, da sua relação com os jornais já na adolescência e a vontade enorme de progredir. Natural de Mococa, no interior paulista, seu nome completo é Alexandre José Periscinoto, filho caçula de uma família de pais imigrantes italianos e 11 irmãos. Seu pai Giovanni Periscinoto, era carpinteiro e nasceu em Veneza e a mãe Tereza era também italiana. “Meu pai era um daqueles imigrantes que Charles Chaplin representava muito bem, amarrando pano no sapato durante o inverno, ele detestava o frio e ao saírem da Itália havia dois navios à disposição para os imigrantes, um seguiria para Boston e outro para Santos e meu pai andando a caminho pro navio de Boston, um amigo dele chamando sua atenção dizendo; ‘Giovanni, Boston, pio fredo che qui’. O medo do frio o fez vir para o Brasil, acho que para o nosso bem e nossa sorte”, contou. 
 
Alex veio ao mundo canhoto e no curso primário, no Grupo Escolar Barão de Monte Santo, em Mococa, sofreu muito por causa disso. “Eu escrevia daqui pra lá, as letras saíam ao contrário, mesmo assim a professora me mandou para o quadro negro para me expor ao ridículo e eu escrevia Grupo Escolar Barão de Monte Santo, daqui pra lá e ouvia a gargalhada da classe era um vexame. Tudo ao contrário no papel também, a minha lição era feita de tal maneira que eu não podia usar o verso porque senão ela não conseguiria ler. Isso provocava ira nessa professora. Até que um dia eu estava chorando no corredor da escola e o dentista, doutor Juvenal, me disse uma palavra que ouvi pela primeira vez na minha vida e nunca mais esqueci, ‘Eu vou te ensinar pantografia’, disse ele explicando. ‘Você faz o seguinte, pegue dois lápis e põe no mesmo ponto, fecha os olhos e tenta fazer uma borboleta. ’ Evidente que uma saiu com asa larga e a outra com a asa estreita. Ele explicou, ‘é o controle motor. Então você vai tentar fazer isso com a mão direita, até você acordar o outro lado do cérebro e você vai conseguir você já tem um lado acordado’. Fui tentando até que um determinado momento eu senti que as duas asas tinham quase o mesmo tamanho. Foi indo, foi indo, até que eu comecei a escrever ‘Alex’ igual em cada mão. Aí eu comecei a fazer um, dois, três, quatro, cinco, comecei. Aí deu certo, é o que ele chamava de pantografia. Eu continuei fazendo e um belo dia ‘joguei fora’ a mão esquerda e comecei a fazer só com a direita. Hoje faço tudo com as duas mãos, mas tenho uma filha e uma neta canhotas e acho bonito vê-las escrevendo com a mão esquerda. Elas não precisaram passar o que passei”...
 
Mudando para São Paulo, os Periscinotos se estabelecem no Belenzinho e Alex se matricula no tradicional colégio Amadeu Amaral, no Largo São José do Belém, mas também tinha que trabalhar e arrumou serviço em uma vacaria, ou seja, tinha que levantar às quatro e meia da manhã para entregar o leite de porta em porta e só depois ia para a escola. Concluído o ginasial, arrumou emprego nas Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, como ajudante de contramestre no setor de decoração de tecidos e as pessoas elogiavam, porque trabalhar no Matarazzo era privilégio de poucos. “Havia colegas, jogávamos futebol na calçada na hora do almoço e como minha casa era um pouco longe eu levava sanduíche pra comer e todo dia era banana de sobremesa, porque banana despencada é mais barata do que aquela no cacho e tudo que se vendia era embrulhado em jornal. Os jornais eram úteis em vários aspectos e não apenas para a informação e leitura. Depois, uma vez por semana, eu tinha que encerar o chão de casa para minha mãe e então, eu colocava jornais debaixo dos joelhos, porque para se passar cera era preciso ficar ajoelhado e o jornal protegia para que não ficássemos com o joelho sujo de cera. Mas enquanto eu ia encerando me chamava atenção os desenhos dos anúncios no jornal. Depois eu guardava as páginas em um canto e à noite ficava tentando reproduzir aquilo que estava desenhado, tentava repetir o fogão, a rádio – vitrola, a enceradeira e até que um dia eu fiz um portfólio e tentei entrar em uma agência”.
 
Aquilo que acontece com quase todos se deu também com Alex Periscinoto, ninguém dava uma chance. Visitou inúmeras agências, apresentava os portfólios que fazia com desenhos copiados de outras propagandas e alguma coisa feita dos desenhos de tecido da Matarazzo e então diziam para ele continuar desenhando tecidos. “Você não nasceu para publicidade, faz tecido”, chegou a ouvir. Até que um dia surge a Sears no Brasil: 1949 e a Sears fez um concurso para contratar desenhistas. “Claro que eu me candidatei, fui lá. E aí botaram um ferro elétrico numa mesa redonda e os oito ou dez candidatos em volta da mesa tinham que desenhar o ferro e só dois foram aprovados, outra pessoa e eu. Fui contratado pela Sears e passei a desenhar ferro elétrico, máquina de lavar, liquidificador, todas aquelas coisas que a Sears anunciava, foi um desenvolvimento gostoso, uma turma boa e tal. Na Sears, depois de dois anos, me tornei chefe de departamento”, lembrou Alex mencionando que naquela época os jornais quase não imprimiam fotografias porque como a impressão era por linotipos, saia borrado e para ficar bonita, a publicidade tinha que ser feita toda com desenhos. “Os jornais tinham uma força publicitária enorme, ainda possuem, mas naquele tempo não tinha a competição na televisão e nem da internet e publicidade mesmo era essencialmente em jornal.” descreveu Alex.
 

 
O comércio crescia e a loja Clipper do Largo Santa Cecília, cliente da Standard Propaganda, se interessou pelos desenhos da Sears e houve uma fala qualquer no sentido de se convidar a pessoa que fazia aqueles anúncios para desenhar para a Clipper.“E a Standard Propaganda me chamou para um teste. Era o Fritz Lessing, o chefe de lá e o João Caligo ao lado dele, dois grandes nomes da publicidade que me aprovaram e depois perguntaram se eu queria trabalhar com eles. Eu já ganhava bem, uns 600 cruzeiros por mês, ou o equivalente, a seis salários mínimos, ou mais, acho que um pouco mais até. Mas estava bem, achando que dava pra ficar mais tempo lá, mas aceitei e fui trabalhar na Standard. Três dias depois fiquei sabendo que o meu salário seria de seis mil por mês, seis mil! Ou seja, dez vezes mais do que eu estava ganhando. Levei um susto”, lembrou com um sorriso afirmando que graças ao novo salário, conseguiu comprar seu primeiro carro usado. Alex Periscinoto ficou deslumbrado com os novos colegas que conheceu, “um mais brilhante que outro”,  descreve entre os quais,  Darci Penteado, um ilustrador muito competente. 
 
Alex se refere à Standard com muito carinho. “Era uma agência brasileira muito à frente das outras concorrentes americanas. Na época, as duas americanas comandavam o mercado. A Thompson e a McCann. Por que a Thompson e a McCann? Porque essas duas agências vieram do exterior para fazer a publicidade no Brasil para seus clientes nos Estados Unidos. A Lever era da Thompson e a Goodyear era da McCann”, explicou para esclarecer que a Standard pertencia a Cícero Leuenroth, “um smart brasileiro que desenvolveu a turma que antes produzia frases para a Companhia de Anúncios de Bonde.” ‘Veja ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado. E, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite.  Salvou-o, o Rum Creosotado!’ Frases como essa vinha em cartazes afixados dentro dos bondes e os produtos anunciados nos bondes vendiam muito. Fritz Lessing, Rubem Vaz, João Cadarço, Igor Araújo, são alguns nomes desses profissionais do passado que bolavam as frases para os anúncios de bonde. Todos foram contratados pela Standard e por uma sorte dessas, que Alex considera divina, acabou ele indo trabalhar com essa equipe. 
 

 
A trajetória de Alex Periscinoto na publicidade é parte da história de São Paulo também por causa das tradições deixadas pelas Lojas Mappin que funcionaram até a década de 1980.  “No Mappin havia colegas que trabalharam comigo na Sears e eles me perguntaram se eu estava querendo voltar a conviver com eles, me transferi para o Mappin em 1955 e foi uma delícia, porque inovamos colocando um grande magazine pela primeira vez na televisão. Para isso criamos um noticiário, o Mappin Movietone, tipo um Jornal Nacional e para apresentá-lo, contratamos o Roberto Corte Real, que era irmão do Renato Corte Real, um comediante já famoso. O Roberto era diferente do irmão que contava piadas e era engraçado, ele era refinado e se vestia com gravata borboleta para ler as notícias ao vivo de maneira doce, educada, adorável, voz pausada, admirável! Minha amiga até hoje, Lolita Rodrigues, fazia os comerciais, também uma doçura a nossa garota propaganda e assim pusemos o Mappin como patrocinador no horário nobre da emissora de maior potência na época, a TV Tupi e a televisão começou a dar resposta, aquilo que se chama na mídia de ‘feedback’. Era impressionante!”. Alex recorda que até hábitos alimentares foram modificados. “As pessoas abandonaram a manteiga e passaram consumir margarina e aumentou a venda de sorvetes, iogurtes e refrigerantes. Descobrimos que quando se lida com a dona de casa, a televisão tem uma força impressionante e a mídia eletrônica começou a bater os jornais em faturamento com publicidade. Foi um marco na história, a televisão superando os jornais com o Mappin Movietone”, enfatizou Alex.
 

 
Mas antes de prosseguir com o depoimento, vale à pena lembrar que o Mappin surgiu no Brasil exatamente há cem anos, 1913 e através de duas companhias inglesas, Mappin and Webb & Mappin Stores, vendendo cristais, luxuosas baixelas, etc. tudo importado.  A casa notabilizou-se por oferecer aos clientes, durante anos, o famoso chá das cinco, primeiro nas lojas da Rua São Bento e só depois na Praça Ramos. Durante a Segunda Guerra, entre 1939 e 1945, o Brasil não podia importar nada e mesmo depois da guerra as importações permaneciam difíceis porque boa parte da Europa havia sido destruída. A indústria europeia estava falida e a empresa norte-americana Sears entrou no Brasil em 1949 trazendo consigo as plantas dos eletrodomésticos que revendia nos Estados Unidos como liquidificadores, geladeiras, batedeiras de bolo e começaram a convocar alguns industriais brasileiros para fabricar aqui as marcas da Sears.  “A Sears vendia nos Estados Unidos uma geladeira que se chamava Cold Spot, ou seja, Ponto Frio, que aqui passou a ser fabricada por uma empresa chamada Brasmotor que virou depois, Brastemp. Ou seja, a tecnologia trazida graças à publicidade ajudou a economia nacional.” 
 
A Arno brasileira passou a fabricar eletrodomésticos pelo mesmo motivo, graças à Sears. Alex Periscinoto menciona um brasileiro chamado Alberto Alves primeiro a comprar as Lojas Mappin. “Ele era dono da boate Oásis, penso que foi bebendo que fizeram a transação, pois o Mappin vendia tudo importado e não tinha mais, mesmo no pós – guerra, como adquirir seus produtos e estava praticamente falido. O Alberto passou então a dirigi-lo de maneira intuitiva e contratou 11 gerentes de publicidade. Interessante é que todos almoçavam no restaurante do Mappin, no mesmo horário e cada um tinha uma história para contar, uma experiência de venda e a gente discutia lá, durante o almoço e dessas conversas, bolamos o ‘mês da indústria’, ‘quinzena dos tapetes’ e essas coisas que chamam atenção nas promoções. Nos anúncios do Mappin colocávamos junto o logotipo dos fabricantes e em um espaço de quatro colunas, em uma página de jornal, colocávamos junto com a promoção das lojas do Mappin, o logotipo dos Tapetes Ita, da Wallita, da Philco. Esses logos eram pagos pelos fabricantes ao Mappin e a loja pagava o anúncio no jornal, então o custo ficava menor para todos e o bom daquilo tudo é que no Mappin havia liberdade para se inventar e graças a isso foram anos e anos de bons negócios”, definiu. 
 
Foi através do Mappin que Alex Periscinoto viajou em 1958 para os Estados Unidos, uma viagem pessoalmente muito almejada, onde estagiou em várias empresas de publicidade. Voltando ao Brasil, trouxe consigo muito conhecimento agregado e mais tarde foi chamado para ser sócio da Alcântara Machado Publicidade - Almap, oferta que aceitou. Em 1998, Periscinoto vendeu suas ações para o grupo norte-americano BBDO, que mais tarde compraria Almap e a renomearia para Almap - BBDO. Alex deixaria essa empresa para fundar a sua própria, a Sales, Periscinoto, Guerreiro & Associados. No mesmo ano torna-se secretário de publicidade institucional do Governo Federal, na Secretaria de Comunicação, na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso. O cargo só duraria dois anos e depois disso Alex passou a dedicar-se somente à sua empresa desde 2000 até os dias atuais.
 
Importante também é lembrar que Alex Periscinoto foi responsável pelo primeiro comercial televisivo filmado no Brasil, para a Cera Dominó e se tornou conhecido internacionalmente pelas campanhas da Volkswagen, importantes para o país, por terem sido veiculadas quando o Governo JK fazia grande incentivo ao transporte rodoviário no Brasil, introduzindo as fábricas de automóveis e novas estradas para o país.  Alex Periscinoto publicou um livro: “Mais vale o que se aprende do que o que te ensinam”, com Izabel Telles pela editora Best Seller, em 1995. A obra reúne artigos publicados por ele ao longo dos anos.

Coleção de vozes vira patrimônio do Estado

por Geraldo Nunes.

 
Existem coleções de todo tipo, mas Luiz Ernesto Kawall, hoje com 85 anos, decidiu colecionar vozes contidas em discos raros, sejam eles de música, discursos, depoimentos ou documentários esportivos.  As coleções crescem e se tornam grandiosas passando a despertar interesse nos setores ligados à ciência e pesquisa. O problema é que a coleção de Kawall ficou multimída, esparramando as aproximadamente 12 mil vozes coletadas em mais de 3 mil long-plays e 1.500 compactos em 33 e 45 rpm. Há também 170 fitas cassete, 200 fitas de vídeo em VHS e 80 DVDs com inúmeras personalidades do Brasil e do mundo. Brincalhão, Kawall deu nome a seu acervo de “Vozoteca LEK” cuja sigla significa as iniciais de seu nome.
 
 
 
 
Platão, discípulo do filósofo Sócrates, dizia que o som entra pelos ouvidos segue ao cérebro e penetra no sangue e o produtor Zuza Homem de Mello, também radialista ainda diz que “para ser feliz é preciso ter música nas veias.” Daí tantas pessoas gostarem de música e tantas outras serem apaixonadas por vozes de artistas sejam eles cantores ou cantoras, atores, locutores, etc. Mais que canções, Kawall guarda depoimentos. Por exemplo, em fita cassete ele tem Pixinguinha entrevistado em uma rádio do Rio de Janeiro contando que a princípio ninguém queria gravar Carinhoso. “Francisco Alves e Carlos Galhardo recusaram, só Orlando Silva aceitou se tornando o maior sucesso dele, o cantor das multidões”, disse na oportunidade o compositor.  Em uma rádio de Santos, Jamelão destila ódio contra aqueles que chamam o intérprete de um samba - enredo de “puxador” de samba. “O cantor interpreta o samba”, reclamava o artista que mais vezes desfilou pela Mangueira em todos os tempos e se tornou nacionalmente 
pelo seu humor engraçado.
 
 
 
Entre os depoimentos raros destacam-se vozes como as de Churchill, Lênin, Stalin, Roosevelt, Barão do Rio Branco e ainda Rui Barbosa, Washington Luiz e Santos Dumont, tendo sido este depoimento remasterizado para DVD graças à Força Aérea Brasileira que encontrou em seus arquivos um antigo filme narrado pelo locutor Luiz Jatobá onde o “pai da aviação” faz um breve discurso.

 

As mídias foram mudando ao longo dos anos e ficou difícil para Luiz Ernesto Kawall passar tudo isso para o sistema digital, trabalho demorado e caro. Uma coleção de vozes em multimídia é diferente de biblioteca onde se guarda somente livros, ainda que raros como a criada pelo empresário José Mindlin e sua esposa Ghita que abriga 17 mil títulos, ou 40 mil volumes que ficaram guardados cuidadosamente na casa deles durante quase 60 anos. Com o falecimento dos dois, a família doou este acervo para a Universidade de São Paulo que está concluindo a construção de um moderno edifício de 20 mil metros quadrados, no coração da Cidade Universitária em São Paulo para tornar tudo disponível ao público.
 
 
O setor responsável pela manutenção do Acervo Mindlin é o Instituto de Estudos Brasileiros, ligado à USP que está disponível em parte para o público.  Essa também é a entidade que anunciou, dias atrás, que irá abrigar a “vozoteca” de Luiz Ernesto Kawall, cedida graciosamente cabendo à USP resolver somente as questões ligadas ao direito autoral.
 
Lúcia Thomé, coordenadora de conservação e restauro da USP informou a “Vozoteca Lek” ficará no mesmo prédio da biblioteca Mindlin, mas sem prazo ainda de disponibilidade ao público porque tudo o que está contido nas gravações terá que ser ouvido e catalogado, para só depois se iniciar a digitalização e “tudo isso deve levar no mínimo uns três anos”, informa Lúcia, acrescentando que o acervo é muito rico e de ótima qualidade, despertando o entusiasmo da equipe que não vê a ora de começar a trabalhar na “vozoteca”. “Lidar com mídia eletrônica é algo maravilhoso por que ela nos oferece uma verdadeira viagem no tempo”, ressalta a restauradora.
 
Kawall foi quem teve iniciativa de oferecer tudo a USP. “Tenho duas filhas que admiram minha pesquisa, mas percebi que não se interessariam em mantê-la e para que nada se perca e para preservar a memória decidi doar tudo a pessoas que de fato estão comprometidas com a história e para isso não há melhores nomes do que os da USP e do Instituto de Estudos Brasileiros, explicou Kawall. A retirada de todo o acervo da casa dele deve acontecer  nos próximo dias. “Quando parar o caminhão de mudanças para retirar a coleção, deixo a chave com porteiro e me mando, pois não quero ver a saída daquilo que construí por mais de 50 anos”, afirmou. “Deixo a ‘Vozoteca’ de presente para São Paulo, embora sabendo que com ela vai embora um pouco de mim”, disse o colecionador consciente do dever cumprido, mas com lágrimas nos olhos.

A Música Popular nos anos de ouro da Rádio Record

por Geraldo Nunes.

Havia muitos fãs e os auditórios ficavam lotados iguaizinhos aos da Rádio Nacional, mas não havia o mesmo glamour do Rio e poucos nomes mantiveram a fama cantando apenas na capital paulista
 
  
 
Os “Anos Dourados do Rádio” tiveram em São Paulo, artistas como Vassourinha, Isaura Garcia, Déo, Mário Zan, Elza Laranjeira, Conjunto Regional do Armandinho Neves, Demônios da Garoa, Neyde Fraga, Roberto Amaral, Cascatinha e Inhana, Esterzinha de Souza, Norma Avian, Vagalumes do Luar, Roberto Luna, Leila Silva, Duo Brasil Moreno, dentre tantos outros, eram ouvidos por todo o Brasil e fazendo sucesso divulgando novas canções.  Estes nomes constam no livro da jovem autora e pesquisadora musical, Thais Matarazzo, que reforça sua obra com uma seção de anexos, que traz curiosidades sobre o “Radioteatro Manuel Durães” e homenagens prestadas a Vicente Celestino pela população de São Paulo, entre outros temas.  . 
 
Quando a conheci, Thais Matarazzo iniciava estudos em engenharia, dando andamento, no entanto, a uma ampla pesquisa musical onde já resgatava a biografia de alguns desses cantores da cidade entre o final dos anos 1920 e início dos anos 1960. Precisei dizer a ela que para melhorar pesquisar, teria que estudar jornalismo e para nossa alegria Thais ouviu o conselho.
 
Recentemente ela reapareceu pedindo que eu escrevesse a “orelha” deste seu livro documentário que também serviu para a tese de conclusão de curso na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, onde se formou. O livro cujo título é: “A Música Popular no Rádio Paulista, 1928 – 1960”, ajuda  resgatar boa parte da memória da música brasileira nas vozes quase esquecidas tantos artistas que passaram pelos microfones da Rádio Record de São Paulo. No texto, ressalto a importância dessa emissora que serviu de porta – voz para os paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932 auxiliando inclusive na mobilização das pessoas que permaneceram na cidade e na orientação às tropas que partiam em defesa da soberania do povo brasileiro. 
 
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A Sociedade Rádio Record de São Paulo ganhou este nome por causa de uma loja de discos que se chamava Record e funcionava no andar térreo do prédio que serviu também de estúdio para a emissora. Seu fundador ao contrário do que muitos pensam, foi Álvaro Liberato de Macedo, dono da loja de discos que deu nome à emissora. “A Rádio Record surgiu meio do acaso. Um dos filhos do Macedo viajou aos Estados Unidos e trouxe um transmissor Collins que irradiava ondas sonoras”, contou no programa São Paulo de Todos os Tempos, o advogado e ex-vereador Francisco Assunção Ladeira. “Nesta nova emissora, tudo ia ao ar meio em caráter experimental, mas caminhando relativamente bem, visto que até um cast de artistas foi contratado. Entretanto, Álvaro de Macedo teve problemas financeiros e pessoais e ofereceu o comando da emissora a meu tio, Luiz Gonzaga Assunção, mas em seguida vendeu a rádio por 30 contos de réis a Paulo Machado de Carvalho, que assim tornou-se dono da Record pagando por ela, verdadeira bagatela”, 
analisou Ladeira, lembrando que depois vieram os acontecimentos ligados à Revolução Constitucionalista e a Rádio Record passou a ser a porta – voz dos paulistas, graças a seus dois principais locutores: César Ladeira e Nicolau Tuma que tomaram a frente dos microfones orientando a população e informando a todos sobre o que acontecia nas frentes de batalha. 
 
Terminado o conflito, a Record dedicou-se a transmitir partidas esportivas com o próprio Nicolau Tuma e também Geraldo José de Almeida. No jornalismo havia a retaguarda de Murilo Antunes Alves, Hélio Ansaldo, Aurélio Campos entre outros e nos auditórios apresentadores brilhantes que depois foram para a TV, como Blota Júnior e Sonia Ribeiro, Randal Juliano e Manoel de Nóbrega, além de comediantes de primeira linha como Golias, Arrelia,  Nhô Totico e Adoniran Barbosa, sem contar a linha de novelas da equipe do Grande Teatro Record, comandado por Waldemar Siglione.  Depois com o surgimento da TV, a Rádio Record buscou uma linguagem mais popular revelando vozes como as do cronista policial Gil Gomes e disc-jóqueis como Dárcio Campos e Eli Corrêa. Na linha sertaneja, o apresentador Zé Bétio é ainda hoje o recordista nacional de audiência pela Record, jamais alcançado por nenhum outro programa ou comunicador de Rádio.

 
O tempo passou e a Rádio Record não pertence mais à família de Paulo Machado de Carvalho e sim à Igreja Universal do Reino de Deus que a princípio manteve os programas populares, mas justamente em 2011, logo após a emissora comemorar seus 80 anos de fundação, a igreja ocupou todo o espaço da programação para a divulgação de temas religiosos descaracterizando inteiramente o tradicional prefixo. Enfim a realidade é essa, mas os bons tempos da Record e as canções de outrora, foram tema de um trabalho jornalístico da maior importância agora ampliado da tese de conclusão de curso e plenamente adaptado para o livro que é de leitura agradável não só para os curiosos, mas também para quem estuda a área como os pesquisadores e colecionadores.  O livro de Thais Matarazzo, “A Música Popular no Rádio Paulista, 1928 – 1960”, é um retrato do que já foi o Rádio paulista, sua música e personagens reais.
 

Adeus ao velho “Barão” nos trás de volta antigas recordações

por Geraldo Nunes.

 
Wilson Fittipaldi narrava corridas de Fórmula - 1 pelo Rádio e também era comentarista do Jornal da Manhã da Jovem Pan
 
Corria o ano de 1978 e ainda estudando jornalismo buscamos emprego na profissão, pois na época não era autorizado o estágio e a primeira oportunidade dada a nós foi através da Rádio Jovem Pan pelo jornalista Fernando Vieira de Mello. O cargo oferecido: rádio - escuta, função que acredito hoje extinta, porque a finalidade de “corujar” emissoras locais, de outros Estados e em certos casos até de outros países para captar notícias, em tempo real, não se faz mais necessário graças à internet. Para nós a chance foi um presente divino, fascinados que estávamos com a possibilidade de trabalhar perto de pessoas que admirávamos através dos microfones como Randal Juliano, apresentador do Show da Manhã; Estevão Sangirardi, criador do Show de Rádio; Narciso Vernizzi, o Homem do Tempo e Wilson Fittipaldi que eu ouvia nas transmissões de Fórmula 1, esporte que nos encantava a ponto de naquele tempo colecionarmos revistas nacionais e estrangeiras que tratavam do assunto automobilismo.
 
O Jornal da Manhã, da Jovem Pan, já era parecido ao de hoje: dois locutores com vozes empostadas lendo notícias e informando a hora certa e cada um pedindo ao outro: “Repita”. De fundo os temas do compositor Billy Blanco... “Ta na hora, vamo embora, vamo embora... Ta na hora”. A Jovem Pan é um orgulho para São Paulo.  Os comentaristas, porém, em 1978, eram outros: Heródoto Barbeiro, então professor do Curso Objetivo e Wilson Fittipaldi, já chamado de Barão pelos colegas, acredito que pelo bigode e a semelhança física com o Barão do Rio Branco.
 
Chegamos à rádio achando que Heródoto e Wilson se odiavam porque discutiam muito durante o jornal, mas fui percebendo que a discordância era uma exigência da emissora que pedia um contraponto nas opiniões. Heródoto seguia uma linha mais liberal e Wilson era mais conservador. No dia – a – dia, entretanto, Wilson Fittipaldi se mostrava sempre aberto a dialogar e sorria para todos, estava sempre de bom humor. Seu sorriso era sua marca registrada. A F-1 já nos anos 70, promovia em média, uma corrida a cada quinze dias, especialmente na fase europeia e o Barão viajava para transmiti-las e depois retornava cheio de novidades, distribuía balas e doces para as repórteres e para os rapazes oferecia revistas estrangeiras mostrando carrões ou então mulheres nuas. Por causa da censura no Brasil, o nu frontal era proibido nas revistas daqui e ao desembarcar o narrador de corridas da Jovem Pan seguia para a redação e entregava as revistas para o mais novinho da equipe que no caso, era eu. Ele dizia maliciosamente: “Leia, faça bom uso e depois mostre para os seus colegas”. E saía rindo.
 
Quando havia um fim de semana prolongado, Wilson Fittipaldi era o primeiro a ir para os microfones e protestar: “O governo deveria proibir os feriados prolongados porque o país deixa de produzir”. Falava para que Heródoto desse o contra e se formasse a discussão. Depois o primeiro a faltar no feriado era ele. Se o fim de semana prolongado começasse na sexta, o Barão já não aparecia na quinta e se fosse à segunda, faltava também na terça. Mas contando assim, em rápidas palavras podemos deixar a impressão que não fosse um profissional sério, o que não é verdade. Eu me reporto a um senhor entrando na casa dos 60 anos com toda uma bagagem de vida. Para nós, quase um vovô em torno dos netos.
 
A vida também era outra, ainda havia tempo para sorrisos e gentilezas nas redações. Antes de ser jornalista, Wilson Fittipaldi chegou a competir como piloto em carro e motocicleta, assistiu a inauguração de Interlagos e depois passou a narrar corridas pelo Rádio a partir do final dos anos 1940. Na Jovem Pan viveu a emoção de contar para todo o país, em 1972, o feito de seu filho mais novo, Emerson Fittipaldi, o primeiro brasileiro campeão mundial de Fórmula 1. “Acho que foi um momento especial. Toda vez que lembro, a voz dele, a emoção, jamais vou esquecer”. Disse emocionado Emerson Fittipaldi, ao Jornal Nacional da Rede Globo, no dia do falecimento do pai, em 11 de março de 2013. A família do Barão teve também Wilsinho como piloto campeão em várias categorias e filho mais velho dele e Christian, outro piloto, neto do Barão. 
 
 
A reportagem da TV Globo se encerrou com um comentário de Rubens Barrichello. “O que ele nos deixou de verdade foi aquele sorriso”, completou Rubinho.