Espaço Vinil
selo Anuncieaqui duplo

Geraldo Nunes

Rádio Estadão estreia programa de História e Memória

por Geraldo Nunes.

Encerrada parceria com a ESPN emissora volta-se mais ainda para o jornalismo e o tema memória volta a ter espaço na programação disponibilizando o arquivo do jornal aos ouvintes

Recebi sinal verde da diretoria para levar ao ar um novo programa de memórias pela Rádio Estadão. A emissora comemora a conclusão do processo de digitalização do arquivo do jornal O Estado de S. Paulo, em 2012, oferecendo ao público um espaço em que se possa abordar tudo o que foi publicado pelo jornal, desde 4 de janeiro de 1875 até nossos dias, nas diversas áreas da vida brasileira e não apenas política, mas também cultura, eventos, esportes, música e publicidade para isso lendo para os ouvintes anúncios comerciais de 50 ou 100 anos atrás, mostrando para o público de hoje como eram diferentes os costumes em outras épocas. 
Outra finalidade do programa é a de informar pelo Rádio que hoje é possível ver pela tela do computador, tudo o que está arquivado no jornal a custo zero. Nos primeiros programas explicaremos como funciona o arquivo, o que ele serve a uma redação e às pessoas. Conosco estará o coordenador da área, do Gruo Estado, Edmundo Leite, que abordará temas interessantes acontecidos na história que servem de assunto para debates e pesquisas.
Na área cultural é interessante ler sobre os saraus musicais promovidos Nair de Tefé, uma mulher à frente de seu tempo, primeira-dama da República casada com o Marechal Hermes da Fonseca, que promovia saraus no Palácio do Catete - o palácio presidencial brasileiro da época. Esses saraus ficaram famosos por introduzir o violão nos salões da sociedade, tornando o samba acessível às elites, ao mesmo tempo em a paixão por música da primeira – dama, reunindo amigos para recitais de modinhas, trazia irritações ao presidente que, entretanto, não a proibiu.
As interpretações de Catulo da Paixão Cearense fizeram sucesso e, em 1914, incentivaram Nair de Teffé a organizar um recital de lançamento do “Corta Jaca”, um maxixe composto por Chiquinha Gonzaga, sua amiga. O jornal publica críticas ao governo e retumbantes comentários sobre os "escândalos" no palácio, pela promoção e divulgação de músicas cujas origens estavam nas danças lascivas e vulgares, segundo a concepção da elite social. Levar para o palácio presidencial do Brasil a música popular foi considerado, na época, uma quebra de protocolo, causando polêmica nas altas esferas da sociedade e entre políticos. Rui Barbosa, então deputado, chegou a tecer fortes críticas a Nair.
Logo após o término do mandato presidencial, Nair mudou-se para a Europa. Voltou para o Brasil por volta de 1921 e participou da Semana de Arte Moderna.  No fim dos anos 1970, participou das comemorações do Dia Internacional da Mulher onde foi homenageada e morreu no Rio de Janeiro, em 10 de junho de 1981,  no dia de seu aniversário de noventa e cinco anos.
Nos primeiros programas explicaremos como funciona o arquivo de um jornal, como funciona e para o que serve. Conosco estará o coordenador da área, Edmundo Leite, que abordará temas interessantes acontecidos na história que servem de assunto para debates e pesquisas. “Um exemplo foi a posse dos prefeitos eleitos nas últimas eleições”, contou Leite buscando no arquivo a posse polêmica ocorrida em 1986, quando Jânio Quadros, então eleito, se deixou fotografar desinfetando a cadeira do prefeito. Disse o jornal: “Incomodado por Fernando Henrique Cardoso, candidato do PMDB, ter posado para a imprensa sentado na cadeira do prefeito um dia antes da eleição em 14 de novembro de 1985, o prefeito eleito, logo depois de ser empossado foi até o seu novo gabinete com uma lata de inseticida e 'desinfetou' a cadeira, explicando aos presentes: “Gostaria que os senhores testemunhassem que estou desinfetando esta poltrona porque nádegas indevidas a usaram”, declarou para todos os que estavam na sala. E completou, “porque o senhor Henrique Cardoso nunca teria o direito de sentar-se cá e o fez, de forma abusiva e por isso desinfeto a poltrona”. Palavras de Jânio publicadas pelo Estadão em 1º. de janeiro de 1986.
Fundado em 4 de janeiro de 1875, com o nome A Província de São Paulo, o jornal passou a se chamar O Estado de S. Paulo em 1.º de janeiro de 1890, um mês e meio após a queda da monarquia. Em 15 de Maio de 1888, publica que após a libertação dos negros, conforme decreto da princesa regente Isabel,  “...agora começa o trabalho de libertar os brancos”, anunciando a disposição de continuar pela Proclamação da República, cuja manchete foi simplesmente “Viva a República”, sem mais texto e com uma única pequena ilustração – o desenho de um gorro frígio, alegoria da liberdade conquistada.
Era uma inovação gráfica ousadíssima para os padrões da imprensa na época. Outra novidade foi a venda avulsa, pelas ruas de São Paulo. Um francês chamado Bernard Gregoire saia às ruas do centro de São Paulo, montado em seu cavalo e acompanhado de um cachorrinho, com uma buzina na mão e um maço de jornais debaixo do braço, apregoava as manchetes e os assuntos dia conseguindo assim aumentar a tiragem que nos primórdios com edição de quatro páginas chegava a vender 2.025 exemplares.
O Estado cobriu a Campanha de Canudos, no sertão da Bahia, com um enviado especial, o iniciante Euclides da Cunha, repórter que mais tarde desenvolveria suas observações para a elaboração do livro “Os Sertões”. Também foram colaboradores do jornal os escritores Aluísio de Azevedo, Júlia Lopes de Almeida, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, Raul Pompeia, Monteiro Lobato e Guilherme de Almeida.
No governo do presidente Artur Bernardes, o jornal apoiou a revolta dos paulistas na Revolução de 1924 e sofreu as consequências. Censurado primeiro pelos revoltosos, ficou sob censura também quando o governo federal dominou a situação. Julio Mesquita foi preso e enviado para o Rio pela polícia de Bernardes e quando ele morreu, em 1927, seus filhos Julio de Mesquita Filho e Francisco Mesquita assumiram a direção da empresa.
Na Revolução Constitucionalista de 1932, o Estado começou a ser perseguido por Getúlio Vargas, que havia apoiado em 1930. Os donos do jornal foram presos e exilados em Portugal, de onde só retornariam dois anos depois. Julio de Mesquita Filho coordenou a criação da Universidade de São Paulo (USP), a convite de seu cunhado Armando de Salles Oliveira, que havia sido nomeado interventor e em seguida eleito governador. A trégua durou pouco. O golpe de 10 de novembro de 1937, que oficializou a ditadura com o Estado Novo, trouxe a censura de volta.
Invadido pela polícia do interventor Adhemar de Barros, a mando de Vargas, em 25 de março de 1940, o Estado só foi devolvido à família Mesquita, que teve de comprá-lo de volta, em 6 de dezembro de 1945. Com a morte de Julio de Mesquita Filho em julho de 1969, – sete meses após a edição do AI-5 – seus filhos Julio de Mesquita Neto (falecido em 1996) e Ruy Mesquita passaram a dirigir o jornal.
O programa Estadão Acervo que teve sua estreia em 5 de janeiro, irá ao ar nos finais de semana.  
Sáb: 6 às 7hs - 23 às 24hs 

PROVA DE SUBIDA DA SERRA PELA ESTRADA VELHA DE SANTOS EM 1958, UMA BELÍSSIMA RECORDAÇÃO!

por Geraldo Nunes.

 
“Se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer. Entre no meu carro, e na estrada de Santos, você vai me conhecer”. Em 1958, certamente o rei Roberto Carlos ainda não havia composto a música “As Curvas das Estrada de Santos”, mas sua inspiração pode ter vindo da II Subida de Montanha, prova de velocidade realizada na Estrada Velha de Santos, o antigo Caminho do Mar. Está certo que Roberto Carlos se referia à estrada nova, a serra da Via Anchieta – hoje bem velha –, mas naquela época os dois caminhos eram normalmente utilizados pelos paulistanos para ir e vir da Baixada Santista. 
 
 
De forma parecida com o que ainda se pratica em São Paulo, no Pico do Jaraguá, a prova do Caminho do Mar reunia aficionados por carros e competições no pé da serra, para cumprir a subida de 7,2 km no menor tempo possível. O regulamento da prova dividia os automóveis em duas classes, os normais e os especiais. Os primeiros eram originais de fábrica, com preparo livre porém mantidas as características principais, com classificação em quatro categorias, até 250 cm3, até 1.300 cm3, até 2.000 cm3 e Força Livre. Os especiais eram carros de corrida, com qualquer motor, chassi, suspensão e freios, separados em duas categorias, até 2.500 cm3e Força Livre. 
 
 
No dia da corrida, exatamente 10 de agosto de 1958, o clima era de euforia. O público se posicionou ao longo do trajeto, como em provas de rali, para ver de perto carros e Pilotos. 
 
 
Na largada o tempo estava bom, mas da metade do percurso até o topo da serra, mais precisamente da chamada Curva da Morte até o fim, a neblina tomou conta. Prevista para a 8h00, a largada foi dada às 10h15, porque os organizadores queriam esperar o tempo melhorar, sem sucesso. Mesmo assim, a prova transcorreu bem, apesar da visibilidade prejudicada. 
 
santos5
 
Inaugurando a Força Livre da classe Especial, Rafael Gargiulo, pilotando um monoposto com motor Ford 8BA, estabeleceu o recorde da pista, com o tempo de 7min13. Na categoria de até 2.500 cm3 , o vencedor foi Plínio de Cerqueira Leite, com um Volkswagen especial, protótipo parecido com o Porsche 550 Spyder, em 7min51. 
 
 
 
Foi a classe normal, no entanto, que reuniu a maior quantidade de participantes, todos com modelos mais conhecidos do público, como DKW, Fusca, MG ou Porsche. O vencedor da categoria até 250 cm3 foi Álvaro Andrade, com Romi Isetta; até 1.300 cm3 venceu Flavio Del Mese, com DKW; até 2.000 cm3 o Porsche de Guy Whitney foi mais rápido e na Força Livre venceu a prova Waldemyr Costa, com Nash Healey. Na categoria até 1.300 cm3 havia ainda MG, Simca 1200 francês, e Fiat 1100. Até 2.000 cm3 participaram Citroën 11 Légère e Porsche. 
 
 
Quanto aos pilotos, além dos vencedores da classe especial participaram alguns nomes hoje conhecidos, como o designer Anísio Campos, com um Simca Conversível 1952, Hans Ravache e Godofredo Viana Filho. Destacaram-se o piloto Flavio Del Mese, que saiu do Rio Grande do Sul com seu DKW 1951 para participar da prova, Wilson Fittipaldi, que narrou a prova pela Rádio Panamericana, e Primo Carbonari, que realizou um filme jornalístico da prova para divulgá-la nas salas de cinema de todo o Brasil. 
 
 
Muitos não puderam participar da II Subida de Montanha por uma razão hoje óbvia, mas na época não muito lembrada pelos pilotos: a falta do capacete. A comissão organizadora foi firme na questão e seguiu à risca as regras da FIA – Federação Internacional de Automobilismo, com a supervisão da Comissão Desportiva Regional do ACB, o Automóvel Clube Brasileiro de Angelo Juliano e Osvaldo Fanucchi, e pela Polícia Rodoviária. A entrega dos prêmios, troféua e medalhas, foi feita na sede do ACB, na rua Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo.
 
 
Fotos: Acervo Família Marazzi

Teatro Abril passa a se chamar Teatro Renault em novembro

por Geraldo Nunes.

O prédio em estilo art-deco, construído em 1929, já teve vários nomes. Teatro Renault é o mais recente, visto que a empresa administradora do lugar fechou contrato com a montadora de automóveis levando adiante o mesmo propósito de trazer os mega espetáculos da Broadway para São Paulo. A história desse espaço cultural, no entanto, é mais antiga e começa com o cine-teatro Paramount, primeira casa de cinema sonoro da América Latina, construída com o propósito de receber grandes plateias, tendo uma área total de 5.500 metros quadrados, capacidade de 1.530 espectadores e ampla visibilidade do palco ou da tela, seja qual for o lugar escolhido. O palco sempre foi um dos melhores de São Paulo, com 210 metros quadrados por 36 metros de altura. 

O Paramount passou por momentos de grandeza e decadência, mas na década de 1960 a TV Record passou a fazer uso do Paramount para apresentação de seus programas de auditório e lá promoveu dois festivais de Música Popular Brasileira entre 1967 e 1968. No primeiro deles Edu Lobo e Marília Medalha venceram com “Ponteio”. Nesse mesmo festival, vaiado enquanto tentava apresentar “Beto Bom de Bola”, o cantor e compositor Sérgio Ricardo quebrou o violão no palco e, aos gritos, arremessou-o contra a plateia. No dia seguinte, dizem os “folcloristas”, o jornal Notícias Populares estampou a manchete: “Violada na Plateia”, em alusão ao fato do instrumento musical ter sido quebrado e arremessado ao público, mas nunca encontramos essa manchete em arquivo nenhum, nem do NP ou de outros jornais. 

No mesmo palco, Tom Zé, cantou “São, São Paulo, meu amor”, e venceu o festival. A vitória de Tom Zé, consagrou a Tropicália como novo movimento musical brasileiro.

A entronização do tropicalismo aconteceu um ano antes, quando  Caetano Veloso cantou Alegria – Alegria, também em um festival da Record promovido nas dependências do Paramount.

A TV Record também usou o teatro para apresentar o programa “Jovem Guarda”, com Roberto Carlos e companhia.  Amigos do “Rei” costumam dizer que quando ele está em São Paulo, vez por outra, pede para seu motorista levá-lo de madrugada até a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio e estacionar o carro em frente ao Paramount. Sentado no banco de trás ele permanece algum tempo olhando atentamente para a fachada do prédio sem dizer uma palavra, recordando quem sabe, os bons momentos que ali viveu. Alguns chegaram a arriscar que a canção “Jovens Tardes de Domingo”, saiu dessas visitas improvisadas. Dos tempos da Jovem Guarda ficaram alguns registros no youtube, como este:

Em 2000 o Grupo Abril rebatizou o lugar com o nome de Teatro Abril e passou a apresentar grandes produções da Broadway e West End como Os Miseráveis (2001), O Fantasma da Ópera (2004) e Família Adams (2012) A primeira grande estreia do novo nome, Teatro Renault acontecerá em março de 2013, com a peça “O Rei Leão”, a maior bilheteria da Broadway já visto por mais de 65 milhões de pessoas em todo o mundo.

 A história do nome Paramount começa na década de 1910 como parte de uma companhia cinematográfica chamada “Famous Players - Lasky” que pertencia ao empresário Jesse Lasky. O imigrante húngaro Adolph Zukor integrava essa sociedade, com uma rede de distribuição para os filmes cuja sede ficava na Melrose Avenue, em Hollywood, cujo nome era Paramount e por iniciativa dele surgiram centenas de salas de cinema de exibição de filmes pelo mundo com essa marca. 

 A Paramount, entretanto, passou a dever milhões de dólares em hipotecas sobre as salas de cinema, com o advento da depressão de 29 e para a superação dessas dificuldades a empresa teve que se reestruturar financeiramente negociando seus cinemas com a venda também dos direitos para o uso da marca, fato que provavelmente a trouxe para o Brasil deixando sua marca registrada para os saudosos. O Teatro Renault chega para escrever novos capítulos dessa história.