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Geraldo Nunes

2014 marca os 60 anos do rock

por Geraldo Nunes.

 
O Rock’n Roll nasceu nos Estados Unidos com um ritmo diferente de tudo o que já tinha ocorrido na música até então, porque unia a batida rápida do boogie-woog, popular em toda a América a partir do final dos anos 30 e o swing da música negra do sul e o country. Diretores musicais e organizadores de eventos adoraram o fato do novo som eliminar a dependência da orquestra, haveria menos músicos a pagar. 
 
Chamado pelos conservadores de barulhento desde o início, para tocar e cantar rock era preciso apenas guitarra elétrica, bateria e contrabaixo. Letras simples e um formato dançante, o novo nome pegou, Rock and Roll, uma gíria que pode ser entendida como dançar e pular, como faziam os jovens a partir de seu surgimento, assim prosseguindo em todas as épocas. 1954 marca o início da fase do surgimento de um abismo entre as gerações. Havia um distanciamento de ideias entre pais e filhos, entre juventude e meia-idade, entre jovens e velhos. Eram duas gerações que não conseguiam mais dialogar; estavam incomunicáveis. Houve reflexos em todas as áreas da cultura e das artes. Este ano marca o início oficial do rock com a música “Rock Around The Clock” e o filme “Balanço das Horas”, com Bill Halley e seus Cometas.

O grupo chega ao primeiro lugar nas paradas de sucesso e após as sessões do filme, cinemas eram depredados. Isso aconteceu também no Brasil.  No ano seguinte acontece a explosão musical daquele que seria o rei do rock Elvis Presley. Dali para frente o rock passou a ter adeptos no mundo inteiro, sendo no Brasil os cantores Carlos Gonzaga, Ronnie Cord e Sérgio Murilo um de seus primeiros representantes, mas gravando geralmente versões. Foi Cauby Peixoto um dos primeiros a fazer sucesso com o ritmo em português, “Rock em Copacabana”, de Miguel Gustavo. 

Os irmãos Tony e Celly Campelo cantam rock no filme de Mazzaropi "Jeca tatu" de 1959. Eles interpretam “Tenho tempo para amar” e Celly estoura nas rádios com os sucessos “Banho de Lua” e “Estúpido Cupido”, no começo da década de 1960. 

No cenário internacional, surgem os Beatles e no Brasil, similares como o grupo Renato e seus Blue Caps que por aplique das gravadoras conseguiam lançar as versões das músicas dos rapazes de Liverpool primeiro que os originais em disco e isso deu uma força tremenda para o ritmo que no Brasil passou a se chamar Iê, Iê, Iê.  Nessa onda é lançado o programa Jovem Guarda, em 1965, tendo à frente Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, com letras românticas e descompromissadas com a política ou com o conflito de gerações ainda existente. Sua duração é curta e o programa termina em 1968 no mesmo período em que surge o Tropicalismo de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé e Maria Bethânia. Os expoentes despolitizados da música entram em declínio, só Roberto Carlos e Erasmo escapam mantendo o sucesso e ficam os remanescentes que mais tarde passariam a ser denominados “bregas”.
 
Nos Estados Unidos, os anos 60, também chamados de  Anos Rebeldes, por manifestações contra a Guerra do Vietnã e a Guerra Fria, o rock ganha um caráter político de contestação nas letras de Bob Dylan e do grupo inglês The Rolling Stones. No final da década, em 1969, o Festival de Woodstock torna-se o símbolo deste período. Sob o lema "paz e amor", meio milhão de jovens comparecem no concerto que contou com a presença de Jimi Hendrix, Janis Joplin e bandas que faziam sucesso como The Mamas & The Papas, Animals, The Who, Jefferson Airplane e Santana. O rock, entretanto passa cada vez mais a ser associado ao cons umo de drogas e artistas começam a morrer vítimas de overdose.   

Embora o Pink Floyd, Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath e Yes, entre outros, mantivessem as raízes roqueiras, no mundo explodia um novo fenômeno a discoteque. Aqui no Brasil Os Mutantes, grupo formado pelos irmãos Arnaldo e Sérgio Dias e ainda Rita Lee inicia uma vanguarda dentro rock nacional e outras bandas se formam. Rita segue carreira solo e os dois irmãos ficam pelo caminho, surgindo Raul Seixas e os Secos & Molhados tendo à frente o vocalista dançarino Ney Matogrosso. 

 

Foi uma boa fase, mas como não havia contestação política o rock brasileiro dessa fase ficou marginalizado se recuperando na década seguinte, com temas mais urbanos e questionando a vida cotidiana. Surgem assim bandas como Ultraje a Rigor, Legião Urbana, Titãs, Barão Vermelho, Kid Abelha, Engenheiros do Hawaii, Blitz e Os Paralamas do Sucesso. Na década de 1990, fazem sucesso no cenário do rock nacional, Os Raimundos, Charlie Brown Jr., Jota Quest, Pato Fu, Skank e Cássia Eller entre outros. 

 Neste cyber século XXI a música parece seguir por novos rumos, alguns ainda desconhecidos e o happie, ainda mais marginal que rock passou a ser a música de contestação. Quanto ao velho e bom rock’ n roll, ele chega aos 60 conservador em suas propostas e parece envelhecer com seus seguidores.

Os festejos do ano-novo são diferentes pelo mundo afora

por Geraldo Nunes.

 
No Brasil, apesar da “festa da virada” se brinda pouco o ano – novo com músicas. Uma antiga canção gravada por João Dias, em 1964, chamada Fim de Ano, ainda é muito cantada nessa época. Francisco Alves, considerado o “Rei da Voz” dizia que João Dias seria seu sucessor. De fato as duas vozes eram belas e muito parecidas, mas os sucessos de João Dias foram poucos se comparados ao antecessor. Mas ficou o registro da gravação que saiu em 78 rpm. 

Réveillon é uma derivação do verbo francês réveiller que significa, despertar.  No século XVII, o termo passou a ser usado designar longos e chiques encontros seguidos de vários jantares realizados em qualquer época do ano. Com o tempo, é que a palavra foi se enquadrando ao sinônimo de festa de passagem de ano, mas a comemoração do ano - novo tem ligação com a natureza e o plantio. Dois mil anos antes da era cristã, os antigos babilônios festejavam a entrada de um novo ciclo por volta do início da primavera no hemisfério norte, o que equivale ao dia 23 de março do calendário cristão. Nessa data era feita a plantação das novas safras, daí a noção de reinício, preservada até hoje entre os ocidentais. 
 
Os gregos celebravam o início do novo ciclo entre 21 e 22 de dezembro, mas o ritual representava fertilidade, pelo renascimento anual do deus Dionísio, a quem se homenageava desfilando com um bebê em um cesto. Para os egípcios a comemoração do ano-novo se dava quando a estrela Sirius surgia no horizonte de Mênfis, a cidade dos primeiros faraós. A data 16 de julho é ainda simbólica para esse povo, porque marca o começo da cheia anual do rio Nilo.
 
Na Alemanha, o porco simboliza boa sorte na comemoração do Réveillon. As celebrações muitas vezes incluem banquetes tendo o leitão como um dos pratos. As mesas são decoradas com porcos em miniatura feitos de marzipã, uma massa doce de biscoito ou chocolate. Entre os povos germânicos, os porcos significam sinal de fartura, fertilidade e riqueza. Na idade média quem possuísse porcos era considerado abastado.
 
No Camboja, as crianças lavam os pés de seus pais e avós para demonstrar respeito aos mais velhos e obter bênçãos em troca. Elas seguem a tradição de borrifar água no rosto, umas das outras, durante a manhã, e nos pés, à noite para que os desejos sejam atendidos no novo período que se inicia.  Naquele país, devastado por uma guerra no passado, o ano - novo é comemorado por três dias seguidos, sendo chamado de “Chaul Chnam Thmey”, que na língua nativa significa “entre, ano - novo”.  
 
Em 1995, os moradores de Talca, pequena cidade do Chile, iniciaram a tradição de passar a véspera do ano-novo junto aos familiares mortos.  Lá, as famílias comemoram a data no cemitério, perto das covas dos parentes. Esta prática vem sendo repetida todos os anos por cerca de cinco mil pessoas.
 
Datas diferentes, sentidos iguais
 
Os judeus têm sua celebração de Ano Novo no primeiro dia do mês de Tishrei, que é o primeiro mês do calendário judaico. O ano novo judaico começa em meados de setembro ou começo de outubro: é o Rosh Hashaná, a “festa das trombetas". Na China, a passagem do ano cai no fim de janeiro ou início de fevereiro, porque lá se segue o calendário lunar.
 
Entre os islâmicos, o ano novo se inicia em maio, pois a contagem islâmica corresponde ao aniversário da Hégira, que em árabe significa emigração. O ano primeiro dos islâmicos corresponde ao 622 da era cristã, ocasião em que o profeta Maomé deixou a Cidade de Meca e se estabeleceu em Medina.
 
Em terras brasileiras
 
No Brasil muita gente gosta de entrar o ano novo na praia e geralmente vestindo roupas brancas. A passagem de ano à meia noite é sempre marcada pela queima de fogos de artifícios, mas a virada também é recheada de comidas e frutas, além do   misticismo que muitos aproveitam para fazer simpatias, molhando os pés no mar ou saltando três ondas para saudar Iemanjá. Para o brasileiro, o ano - novo é época de renovar e renovar sonhos. Deste modo, seja feliz em 2014.

Antiga estação desativada de energia vira espaço de experimentação de artes e música no centro de SP

por Geraldo Nunes.

 
Um novo espaço cultural voltado às artes e a música foi criado em São Paulo num prédio bem conhecido dos paulistanos, mas nem sempre lembrado. O lugar se localiza na Praça da Bandeira, ao lado da Avenida 23 de Maio onde funcionou a subestação Riachuelo de eletricidade, criada pela antiga Light & Power, em 1926 e que agora levará o nome de Red Bull Station. 
 
O prédio é tombado desde 2002 pelo Conpresp - Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo e alguns leitores e ouvintes andaram reclamando, mas de nossa parte não vemos nada de mal em se utilizar um espaço tombado desde que sejam respeitadas as normas arquitetônicas da construção. A informação inicial é que   houve uma longa reforma para adaptação ao novo uso do espaço e restauro seguindo-se as regras do Conpresp e que o espaço ocupará os cinco andares do prédio. 
 
As atividades já começaram, mas a partir do início de 2014 ganharão força com os participantes trabalhando em ateliês individuais, onde originalmente funcionavam as salas de transformadores de energia, podendo cada um apresentar suas obras no espaço expositivo chamado de Galeria Transitória. Com foco no desenvolvimento de artistas, ocorrerão palestras e workshops com produtores e pesquisadores com foco em artes plásticas e música.
 
O prédio ainda abrigará um estúdio para gravações e ensaios.  O Red Bull Studio, é um projeto internacional já presente em outras cidades como Nova York, Los Angeles, Madri, Cidade do Cabo, Copenhague, Auckland, Londres, Amsterdã e Paris. O estúdio se coloca como um espaço de experimentação e produção musical para artistas novos onde poderão ser gravados programas especiais para a web, além de workshops ministrados por grandes nomes da música nacional e internacional. A curadora do projeto é Paula Borghi
 
As reformas estão sob responsabilidade do escritório Triptyque, que, no entanto, vai criar um novo ambiente no topo do prédio, uma espécie de heliponto que não se destinará ao pouso de helicópteros mas para uma área de convivência com coquetéis ao ar livre, com vista para o centro da cidade. A reforma também restaura e reativa um antigo chafariz que fica no topo do edifício. A Lock Engenharia é o escritório responsável pela execução e coordenação da obra civil. O espaço está dividido em cinco níveis: porão (subsolo), térreo, mezanino, piso superior e laje (cobertura). O porão abriga um espaço expositivo, camarim, lounge e área livre para ensaios.
 
O estúdio de música (Red Bull Studio) fica no térreo, assim como o café, espaço expositivo principal e um lounge; O mezanino é ocupado por escritórios e parte técnica. No andar superior estão os ateliês dos integrantes da residência artística e a Galeria Transitória – onde os artistas poderão testar seus trabalhos antes de descerem para a galeria principal – além de salas para workshops e palestras. A bomba de água original da sala de máquinas foi integrada à decoração do restaurante que funcionará no local. 
 
Esse antigo prédio foi construído pela Light & Power Company em uma região antes chamada de Baixo Piques, um lugar lamacento pela confluência dos córregos Saracura e Itororó, com o Anhangabaú. Estudantes da faculdade de Direito, bem próxima dali, se aventuravam nos finais de semana em caçadas às perdizes existentes em grande número. Ali se localizava a estalagem de um português cujo apelido era João Bexiga que não cobrava para que as pessoas dormissem em sua casa, mas cobrava para guardar os animais. Da Praça da Bandeira, onde há hoje um terminal de ônibus partiam os caminhos de tropeiros e boiadeiros que seguiam a Santo Amaro e a Pinheiros. Esses caminhos tinham início onde estão hoje respectivamente as ruas Santo Amaro e Santo Antônio. Havia também nas proximidades, no século XIX,  um matadouro, cujos tripeiros comercializavam a bexiga de boi e deste comércio, além do apelido do dono da estalagem, surgiram as versões para o nome do bairro que ali se instalou morro acima, o Bexiga, cujo nome oficial é Bela Vista.O novo espaço cultural surge, portanto, repleto de muitas histórias da São Paulo antiga e o restauro completo da fachada do prédio, que poderá ser visto iluminado nas noites de trânsito na Avenida 23 de Maio, será finalizado em janeiro de 2014.

Mário de Andrade se vivesse hoje seria compositor

por Geraldo Nunes.

 
Explicar Mário de Andrade com poucas palavras é complicado porque se trata de um poeta, romancista, musicólogo, historiador, folclorista, crítico de arte e fotógrafo, tudo ao mesmo tempo e trabalhando de forma criativa e inovadora. Quem nos dias de hoje realiza todas essas atividades de uma só vez? Tem mais, se vivesse hoje seria compositor porque suas poesias, ainda atuais, andam sendo cantadas pelos rappers. Outra constatação é a da  pesquisadora musical Alessandra Santos ao mostrar no seu livro “Arnaldo Canibal Antunes” que as canções e a do ex-Titã recebem a influência dos modernistas.
 
O rapper Everaldo Carmo, dos Urbanos Mc’s, diz identificar no texto de Mário de Andrade semelhanças ao que ele percebe na periferia quando lê “...nem todo o trigo do universo feito pão acalmava esta fome antiga e multiplicada fome de fome ou não”, os Urbanos Mc’s no TV Escola, um especial para a televisão sobre o poeta disponível no youtube. 

Não basta escrever sobre a importância da biografia de Mário de Andrade, é preciso saborear seus textos que versam sobre o contraditório. Em Ode ao Burguês, do livro Paulicéia Desvairada, o poeta retrata os segmentos sociais da São Paulo que ele viveu com os barões do café, os imigrantes endinheirados e os sem dinheiro além dos inúmeros operários. “Eu insulto o burguês! O burguês-níquel, o burguês-burguês! A digestão bem feita de São Paulo! O homem-curva, o homem - nádegas! O homem que sendo francês, brasileiro, italiano é sempre um cauteloso pouco -a- pouco... Eu insulto as aristocracias cautelosas... eu insulto o burguês funesto!”
 
Entre os fundadores do modernismo brasileiro, Mário de Andrade praticamente criou a poesia moderna com a publicação de Paulicéia Desvairada, em 1922.  O livro é composto de 22 poemas curtos, retratando um segmento da vida em São Paulo, para culminar em um longo poema.
 
“Profundo.  Imundo Meu Coração. . . olha o Edifício!  Os vicios me corromperam  na bajulação sem juros. . . minha alma corcunda como a avenida São João. . .” Ao recitá-los a princípio Mário foi vaiado, mas suas palavras foram deglutidas e depois todos passaram a admirá-lo, influenciando inclusive o modo de escrever de vários autores.
 
“Eu sou a fonte da vida. Do meu corpo nasce a terra. Na minha boca floresce a palavra que será. Eu sou aquele que disse: “Os homens serão unidos se a terra deles nascida for pouso a qualquer cansaço”. Eu odeio os que se amontoam. Eu dei aos esquecidos que não provam desse vinho, o hino das multidões. É deles que nasce a terra. E são a fonte da morte. Força, amor, trabalho e paz. E se o amor se desperdiçar, e se a força esmorecer, e se o trabalho parar e a paz for gozo de poucos. Eu sou aquele que disse: “Eu sou a fonte da vida”. Não conte o segredo aos grandes e sempre renascerá força, amor, trabalho e paz”. (Mário de Andrade em Café – Hino Fonte da Vida)
 
Mário Raul de Morais Andrade, nasceu em São Paulo, a 9 de outubro de 1893. Seu pai Carlos Augusto de Andrade era jornalista e também escritor. Sua mãe, Maria Luísa de Almeida Leite Moraes de Andrade, entendia de música. Durante sua infância, Mário foi considerado um pianista prodígio e, adolescente, se matricula no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde já estava seu irmão mais novo Renato, também um exímio pianista.
 
Em 1913, Renato, então com quatorze anos, morre de um golpe recebido enquanto jogava futebol, causando profundo choque na família. O trauma deixa Mário com tremores nas mãos e por esse motivo abandona o piano, voltando-se à literatura e em 1917, publica seu primeiro livro com o título, “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema”, sob o pseudônimo de Mário Sobral.
 
Passa então a escrever artigos para jornais quando surge a polêmica com Monteiro Lobato que faz dura crítica, a Anita Malfatti em artigo no Estadão, deixando Mário indignado.
 
Da discussão surgem as iniciativas para a realização da Semana de Arte Moderna, que aconteceria em fevereiro de 1922 para reformular conceitos da literatura e das artes visuais.
 
A cultura brasileira antes centrada apenas no Rio de Janeiro voltaria suas atenções para São Paulo. As idéias por trás da semana seriam delineadas no prefácio do livro Paulicéia Desvairada e nos poemas. O prefácio não fala do livro, mas sim de uma atitude geral perante a literatura, numa espécie de manifesto poético, em versos livres. “Estou fundando o desvairismo, o meu texto é meio a sério e meio a brincar...” nas palavras do próprio Mário de Andrade. Convém ressaltar que Paulicéia Desvairada é o primeiro livro que se refere a São Paulo como uma metrópole. Ao mesmo tempo o autor demonstra amor à cidade e a chama de “minha noiva, minha vida”.
 
Em 1927 Mário viaja pelo norte do Brasil coletando folclore e pesquisando um grande número de lendas e tradições. Lança ali as sementes de Macunaíma, sua grande obra. 
 
“No fundo do mato virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Urariquera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. Passou a infância a reparar no trabalho dos outros. Nem falar, falava o danado. Vivia entre os banhos no rio e as relações perigosas com a mulher do irmão Jiguê, Sofará. Transformava-se num príncipe e passava horas a brincar com ela. E a qualquer tentativa de fazer o pequeno reagir para a vida logo a frase vinha: ‘Ai, que preguiça’.”
 
A melhor definição de Macunaíma vem do próprio Mário que o interpreta como um herói que representa o povo brasileiro e por isso não tem nenhum caráter ao explicar: “Esse caráter nada tem a ver com moral. Falta caráter pelo fato de não haver nada que o caracterize, ou seja, o brasileiro ainda é um povo em formação.”
 
 
O livro Macunaíma foi lançado em 1928 e na década de 1930, Mário se torna diretor-fundador do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, formalizando um papel que ele já vinha desempenhando informalmente como catalisador da modernidade artística na cidade e no país. Mas por questões políticas é afastado e fica profundamente magoado. Logo em seguida é convidado por Gustavo Capanema e aceita convite do Ministério da Educação para atuar no Rio de Janeiro. Ali trava amizade com vários intelectuais entre os quais Raquel de Queiroz que se tornaria amiga e confidente, mas Mário não suportava ficar longe de São Paulo e para cá retorna. De volta à sua Paulicéia, Mário de Andrade tornaria a pesquisar o folclore e fez isso até o dia 25 de fevereiro de 1945 quando então se calou como se calam os pássaros, no silêncio das madrugadas.

Saudades das pernas da Isaurinha

por Geraldo Nunes.

 
A cantora Isaura Garcia partiu há 10 anos, mas da notícia de seu falecimento me lembro bem porque eu estava iniciando minha atividade de apresentador de programas em estúdio de rádio e foi a primeira das notas tristes envolvendo pessoas do meio artístico que tive de ler.  Era 31 de agosto de 1993, ela estava com 70 anos.
 
Dias depois me encontro com um apaixonado cronista de São Paulo, Lourenço Diaféria, que comentou o passamento da artista. “Foi uma das mulheres mais lindas que eu já vi e me disseram que morreu só e quase esquecida”, lamentou. Lourenço era do Brás e Isaurinha também com uma particularidade a mais. A moça tinha um sotaque macarrônico que a tornava mais paulistana ainda. Dizem os antigos que mais ainda que Rita Lee, Isaura foi, em sua época, “a mais completa tradução” de Sampa, parafraseando Caetano Veloso.

Ela morava na Rua da Alegria que ainda tem esse nome e seu pai era comerciante. Isaurinha o ajudava na mercearia engarrafando óleo e cachaça para os fregueses, mas adorava cantar e cantava o dia inteiro a ponto dos vizinhos começarem a incentivá-la a ir nos programas de calouros. Um dia acabou se inscrevendo junto com a mãe e foram as duas tentar a sorte. Lá chegando, pediram à moça que passasse o tom de sua voz para a música escolhida e ela nem sabia o que era tom. Obviamente, ela e a mãe foram gongadas e na volta todos os que antes incentivavam estavam na porta aguardando para caçoar delas. Mas Isaurinha tentou outras vezes até ser contratada, entretanto no início, sem remuneração. O pai não dava dinheiro e a cantora iniciante ia a pé de sua casa até a Praça da República, onde ficava a Rádio Record, só para cantar. 
 
Um dia a mãe dela se cansou de ver aquilo e foi até a emissora, “ou vocês a contratam ou então ela não vem mais”. Decidiram contratá-la e a moça passou então a ir de bonde, todos os dias, para o trabalho.

Lourenço Diaféria, também morador do Brás, ainda era menino. Ele e seus amigos ficavam na rua todos os dias aguardando Isaurinha passar para pegar o bonde. O esforço era para poder ver de perto as belas pernas da cantora. “Imagine alguém do Brás podendo ver de perto as pernas da Isaurinha!” Confidenciou.
 
No Rio de Janeiro a Rádio Nacional promovia anualmente o concurso de Rainha do Rádio e a cada ano ganhava uma cantora diferente. Primeiro foi Marlene, depois Emilinha Borba, Dalva de Oliveira e Ângela Maria, entre outras. Concurso semelhante foi promovido em São Paulo, mas aqui o público era unânime em eleger seguidamente Isaurinha Garcia. No auge da fama, ela se apaixonou por Walter Wanderley, tecladista de muito talento que a acompanhava. Eles chegaram a viver juntos, mas por essas coisas que só o coração explica, o amor terminou para ele, mas não para Isaurinha que se pôs a chorar, chorar e chorou muito, até o fim da vida, pois para ela não havia outro nome nesse mundo.
 
Isaurinha gravou canções de sucesso, mas as que me chamaram atenção foram as que ficaram registradas em um disco depoimento lançado de um programa da Rádio Eldorado que se chamava FM Inéditos, onde artistas da MPB interpretavam canções que não faziam parte de seu repertório. Nesse disco Isaurinha canta várias músicas de Roberto Carlos de modo sentimental, inclusive uma que diz, “onde você estiver não se esqueça de mim”. Isaurinha partiu há dez anos e meu amigo Lourenço Diaféria também já se foi, mas me deixou essas histórias e o gosto de poder admirar, mesmo tendo sido após sua passagem pela vida, a voz e os encantos de Isaurinha Garcia que reconhecida, foi homenageada com a peça Isaurinha-samba jazz & bossa nova, assistida por mais de 300 mil pessoas em 2003.