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Santo Expedito

por Marilu Torres.

O Santo das causas urgentes
Celebrado em 19 de Abril
 
 
Nem bem o dia 19 de Abril amanhece centenas de pessoas vão surgindo das escadas da estação do metrô Tiradentes, próximo ao Batalhão Tobias de Aguiar, sede da ROTA, na região central de São Paulo. Eles chegam movidos pela gratidão e pela esperança. Muitos vêm agradecer uma graça alcançada, outras, implorar por um milagre. A Rua Jorge de Miranda, onde se localiza a Capela de Santo Expedito em São Paulo se transforma numa imensa feira livre, nos tabuleiros dos ambulantes a realidade mística transforma os mais variados objetos (medalhas, terços, chaveiros, imagens) em amuletos, objetos mágicos, que as devoções populares acreditam capazes de proteger contra perigos e doenças. Nas situações de desespero, o devoto precisa de um herói, no caso, um guerreiro, alguém cujas forças estão acima da compreensão humana, alguém, cujo prestígio junto a Deus, garanta que sua prece seja fortalecida e prontamente atendida.
Se você percorrer a nave lateral de qualquer das 1.300 igrejas paulistanas, vai logo localizá-lo. Seu rosto é jovem, bem barbeado, seus cabelos são curtos, como convém a um militar do exército romano. A túnica vermelha, displicentemente jogada ao ombro, cobre parte do uniforme de legionário; seu elmo está pousado ao chão, onde o rude coturno de guerreiro esmaga um corvo negro - histórica figura demoníaca que ousara desafiá-lo. 
Conta a tradição, que séculos atrás, quando o guerreiro decidiu se converter ao Cristianismo, o mesmo corvo não parava de persegui-lo, grasnando seguidamente: “Cras, Cras” - que em latim quer dizer – “amanhã, amanhã”, com o intuito de adiar indefinidamente sua conversão. Mas o jovem tribuno, que tinha sob seu comando uma Legião de quase 7.000 homens, livrou-se das asas negras da ave maligna e gritou-lhe: “Hodie”- "Hoje", reafirmando, bravamente, a sua resolução de abraçar a nova fé, apresentada por Jesus Cristo. Sua representação nos altares, com a cruz que traz em uma das mãos e a folha de palma na outra, exemplificam sua morte como um mártir do Cristianismo.
 
 
Sant´Espedito di Melitene
 
Dentre os quase 6.800 santos e beatos do Martiriológio Romano, devidamente atualizado em 2001, encontrei muito poucas e desanimadoras informações sobre o tribuno que comandava a XII Legião do exército romano, chamada “Fulminata”. 
Segundo a tradição, Santo Expedito era natural da Armênia, provavelmente da região de Melitene, local onde sofreu seu martírio. 
Situada ao Sul do Cáucaso, entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, às margens dos Rios Tigre e Eufrates, a Ásia Ocidental sempre foi considerada uma terra de predileções religiosas. Pelo testemunho da Sagrada Escritura, foi sobre as montanhas da Armênia – o Monte Ararat - que a Arca de Noé teria pousado quando as águas do dilúvio baixaram (Gênesis, 8.5). 
Essa região foi uma das primeiras a receber a pregação dos apóstolos Judas Tadeu, Simão e Batolomeu; é também marcada por inúmeras perseguições aos cristãos, terra regada com o sangue dos mártires.
 
 
Vale lembrar...
No final do século I o Império Romano atingia sua máxima extensão; já tinha conquistado toda a Itália e muitos outros territórios da Europa, do norte da África e do Oriente Médio. Foram tempos memoráveis, em especial pelas construções feitas em Roma e outras cidades, e pelo grande desenvolvimento da arte e da literatura. A cultura romana – suas leis, seus costumes, sua língua e seus templos – espalhou-se pelas províncias, principalmente europeias e asiáticas, e para proteger esse Império guarnições militares foram fixadas ao longo das fronteiras. Entre elas, a duodécima Legião Romana, conhecida como "Fulminata", vinha de várias campanhas vitoriosas; a bravura de seus soldados tornara-se mitológica. Disciplinados e bem treinados, os legionários eram auxiliados por uma cavalaria agressiva e enfrentavam contingentes de forças muito superiores às suas, graças à coesão e às táticas de luta que empregavam. Entre os primicerius (espécie de general de divisão) da XII Legião Romana, estava Expedito,  nosso herói.
 
O Milagre da Chuva
A Legião Fulminata, em sua campanha contra os quadi,  povo que habitava a região onde hoje é a Eslováquia, achava-se em  campo  de batalha, quando se sentiu sitiada pelo inimigo. Em pleno verão, o sol brilhava inclemente sobre a interminável planície, faltava água no acampamento. Entre os legionários, muitos haviam se convertido ao Cristianismo seguindo o exemplo de seu comandante, e era costume entre os  bravos soldados da Legião Fulminata orar antes das batalhas. Naquele dia  a resposta às orações foi imediata. Dos céus sem nuvens caiu uma chuva abundante, miraculosa, os raios e granizos eram tão fortes, que surpreenderam o inimigo. O exército romano saciou sua sede e, recuperado, venceu a batalha. O imperador Diocleciano, conhecido perseguidor dos cristãos, informado do ardor religioso do comandante da Legião Fulminata ofereceu a ele títulos, posses e riquezas para que ele abdicasse de sua fé em Cristo. Expedito não aceitou, decretando assim, sua própria morte. Seu martírio teria ocorrido em data equivalente hoje a 19 de Abril, quando Expedito e alguns companheiros foram decapitados e seus corpos enterrados em vala comum.  
 
A devoção a Santo Expedito
A devoção à memória de Santo Expedito começou em sua cidade, Melitene onde ele nasceu e viveu. É de se supor, que seus contemporâneos cristãos tenham se encarregado de contar as circunstâncias de seu martírio, muitos eram soldados que se deslocavam em constantes campanhas de guerra o que, com certeza, facilitou a divulgação de sua história. Da Armênia o culto a Santo Expedito se expandiu para a toda a Europa alcançando a Itália, Espanha, França e a Alemanha. Às Americas o culto teria chegado mais tarde, em fins do século XIX, com a imigração dos italianos, espanhóis e alemães, todos católicos.
 
Entretanto, a devoção a Santo Expedito precisou de décadas para decolar e crescer.
O primeiro trabalho neste sentido começou com um famoso radialista de São Paulo, Eli Corrêa, que em seu programa rezava a Oração a Santo Expedito tão enfaticamente, que o número de devotos começou a crescer. 
Muitas pessoas que ouviam seu programa ligavam para contar sobre graças alcançadas. Santo Expedito foi eleito por seus devotos para resolver casos práticos do dia a dia – falta de emprego, aumento de salário, papéis engavetados pela morosidade jurídica, entretanto, ele tem se revelado o Santo de Todas as Horas, decidindo de forma rápida e eficaz qualquer problema. Palavra de seus devotos.
 
Testemunho de Fé
Capitão Otacílio José de Souza- Coordenador Operacional da ROTA 
(Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) São Paulo - 2008
 
"Santo Expedito entrou na minha vida em 1996, um ano após eu ter sido promovido a Capitão da Polícia Militar do Estado de S. Paulo". Na época, meu filho de um ano de idade, passava por um sério problema de saúde e precisava ser operado. Era uma operação delicada, e talvez, uma só intervenção não resolvesse. 
Uma noite, voltando pra casa, achei um santinho com a foto de santo Expedito, e no silencio da noite, tivemos uma conversa: 
- “Eu sempre soube que você é o padroeiro da Polícia Militar desde 1942, vamos combinar o seguinte: se meu filho fizer a cirurgia uma só vez, eu prometo que vou levar sua devoção durante toda a minha carreira na Polícia Militar. Vou te honrar, distribuir medalhas e imagens, vou dar o meu testemunho até quando eu viver, pra contar a todos que você me atendeu. Dois dias depois, fui a Araraquara visitar um amigo e ganhei dele uma imagem de Santo Expedito. Aquele sinal foi muito forte. Hoje meu filho está bem, ele sarou  com apenas uma cirurgia e nunca mais deixei de dar meu testemunho de fé na intercessão de Santo Expedito”
 

Seguramente Santo Expedito é um fenômeno das situações criadas pelo mundo moderno: demandas jurídicas, dívidas, problemas familiares situações de estresse financeiro. Em tempos de “time is money", a rapidez do comandante da Fulminata, sem dúvida, é preciosa, e o “boca a boca” de seus milagres imediatos transcende o campo espiritual. 

Extraído do livro Brasil – Terra de Todos os Santos (a ser publicado)

Marilu Torres