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Milton Nascimento se propõe a fazer novas canções de protesto

por Geraldo Nunes.

 
Aquele cantor comportado e até tímido que conhecemos rompeu com seu jeitão introspectivo ao visitar nessa semana à Rádio Estadão e colocou-se a falar de planos e fez até proposta de trabalho. Nada melhor para um programa entrevistas voltado aos que apreciam as coisas da noite. Um entrevistando falante, vale por dez reportagens. 
Milton recorreu à sua memória privilegiada para falar dos protestos que andam acontecendo no país. Para ele, parece mesmo que o Brasil acordou e lamenta a presença dos baderneiros que se aproveitam no meio de tanta gente boa e bonita querendo atrapalhar, “mas não vão conseguir”, assegura o artista que compôs músicas de protesto ao regime militar. “Eu tenho acompanhado tudo, as coisas que a Dilma propôs na campanha dela são fantásticas, mas por algum motivo não saíram do papel e agora se cobra aquilo que não foi adiante.” 
Como compositor ele entende que a classe artística precisa se pronunciar e se fazer presente em momentos como este. “Eu já passei por muitas coisas, pela fase da censura, depois veio à abertura e enfim o  movimento das  diretas já, mas isso não quer dizer nada, estou aqui de novo e toda vez que precisarem de mim, estou à disposição”. 
Enfim, Milton quer cantar as novas mudanças que o  Brasil pede e já busca inspiração para isso conversando com pessoas e lendo tudo a respeito.
 
O músico se apresentou nos dias 27 e 28 de junho em São Paulo com o show  “Uma Travessia” onde cantou algumas das canções que fez em parceria com o “Clube da Esquina”, um grupo de amigos da cidade de Três Pontas – MG, dos quais se destacam outros nomes da MPB como Lô Borges e Beto Guedes. Perguntado na entrevista concedida ao apresentador Emanuel Bonfim, da Rádio Estadão, sobre a música que lhe deu mais trabalho para ser feita, ele diz ter sido Saudade dos Aviões da Panair 

e que por causa dela acabou compondo no mesmo dia uma outra. “Foi assim: eu acordei às 9 da manhã e fui direto pra sala num apartamento que não tinha nada, em Copacabana. Só tinha fogão, geladeira, um negócio para eu dormir no quarto, além do piano. Eu fiquei ali o dia inteiro só com o eco. Eu adoro o eco, sou fã. Insisti nesta música até umas seis da tarde. Quando estava cansado, decidi ir pro quarto e olhar para o teto. No caminho, no momento que ia entrar nele, eu olhei para trás e vi o piano. Aí fiz de imediato outra música, que é Ponta de Areia. 

 
 
Eu não estava pensando em fazê-la, mas eu estava com tanta coisa na cabeça por conta daquela primeira que acabaram saindo as duas”.
 
A entrevista finalizou com Milton dizendo que o importante é que continua disposto, com saúde controlada e a fim de trabalhar e para dar exemplos do que também quer fazer, fez uso de novo de suas memórias. “Eu gostaria de voltar a ser ator, sempre gostei de teatro e quando morei em São Paulo trabalhei com o Plínio Marcos numa peça, gostei muito e ainda participei do filme do Werner Herzog, cujo nome é Fitzcarraldo”. Foi uma das coisas mais maravilhosas que aconteceram na minha vida. Sempre digo: “Tem um ator aqui esperando o convite de um diretor!”